A administração de Donald Trump tem alterado a natureza das linhas de swap cambial, transformando o que eram mecanismos técnicos de estabilização financeira em instrumentos de política externa. Historicamente, o Federal Reserve (Fed) utilizava esses acordos apenas em momentos de crise aguda para garantir a liquidez global e evitar o colapso de ativos. Agora, a concessão desses benefícios parece estar atrelada à proximidade diplomática com a Casa Branca, conforme aponta um estudo recente do Peterson Institute for International Economics.

O uso do acesso à liquidez em dólar como incentivo geopolítico gera preocupações sobre a independência do Federal Reserve. Ao misturar as funções de banco central com as ambições da política externa, Washington corre o risco de descaracterizar o dólar como um porto seguro previsível. Se governos estrangeiros passarem a ver a liquidez americana como um serviço condicionado a alinhamentos políticos, a demanda global pela moeda pode sofrer uma erosão gradual, enfraquecendo o pilar central da hegemonia financeira dos Estados Unidos.

A mudança no uso das linhas de swap

Tradicionalmente, a responsabilidade de utilizar swaps para fins de diplomacia financeira recaía sobre o Fundo de Estabilização Cambial do Departamento do Tesouro, que detém cerca de US$ 220 bilhões. Esse fundo foi desenhado justamente para ser um braço do poder executivo em questões de estado. No entanto, o Fed possui uma capacidade de criação de moeda teoricamente ilimitada, tornando-se o parceiro mais cobiçado por nações em busca de segurança financeira.

O Fed mantém linhas permanentes, conhecidas como "gold-plated", apenas com um grupo seleto de bancos centrais: Canadá, Japão, BCE, Inglaterra e Suíça. A tentativa de expandir esse círculo exclusivo para aliados políticos, como o interesse ventilado pelos Emirados Árabes Unidos, coloca o banco central em uma posição delicada. O debate gira em torno de até que ponto o Fed deve se submeter a agendas de governo sem comprometer a sua autonomia operacional.

O risco para a independência do Fed

O novo comando do Federal Reserve, sob a gestão de Kevin Warsh, tem sinalizado uma postura distinta em relação à colaboração com o executivo. Durante sua sabatina no Senado, Warsh afirmou que, embora a política monetária permaneça independente, o banco central pode colaborar em "questões não monetárias" de estado. Essa distinção, contudo, é vista por especialistas como uma linha tênue que pode facilitar a captura da instituição pelo poder político.

Se o mercado passar a interpretar que as decisões de alocação de liquidez são pautadas por favores e não por necessidade econômica, o status do dólar como moeda de reserva global pode ser questionado. A previsibilidade é o ativo mais valioso da divisa americana. Ao introduzir incertezas políticas no acesso a esse mercado, os EUA podem estar, inadvertidamente, incentivando nações a buscar alternativas financeiras menos politizadas para suas reservas.

Implicações para o ecossistema global

Para reguladores e investidores, o sinal de alerta está ligado. A percepção de que o Tesouro pode "requisitar" o balanço do Fed para fins diplomáticos altera o cálculo de risco de todos os detentores de ativos em dólar. Países emergentes e potências regionais observam esse movimento com atenção, avaliando se o custo de manter uma dependência total do sistema financeiro americano superou os benefícios de estabilidade que ele oferecia nas décadas anteriores.

No Brasil, como em outras economias emergentes, a volatilidade do dólar e a confiança na sua disponibilidade são temas centrais para a política monetária. Se o sistema financeiro global se fragmentar em blocos de acesso, a previsibilidade dos fluxos de capital pode ser severamente afetada. A instabilidade gerada por essa nova doutrina de "dólar como ferramenta de favor" pode acelerar movimentos de diversificação de reservas que já ocorrem de forma tímida em diversos bancos centrais ao redor do mundo.

O futuro da credibilidade americana

O que permanece incerto é se essa estratégia trará os dividendos diplomáticos esperados pela administração Trump ou se o custo de longo prazo para o dólar será alto demais. A história sugere que a confiança nas instituições financeiras é construída ao longo de décadas e pode ser erodida rapidamente quando a política se sobrepõe à técnica.

O mercado financeiro global continuará observando se novos países serão admitidos no grupo das linhas de swap de elite e sob quais critérios. A capacidade de separar os interesses da Casa Branca das necessidades do sistema financeiro global será o teste definitivo para a atual liderança do Fed. A questão não é apenas quem terá acesso aos dólares, mas quem ainda desejará o dólar se as regras do jogo puderem mudar conforme o ocupante da Casa Branca.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune