A Uber está eliminando 10% de sua força de trabalho corporativa, um corte de aproximadamente 3.300 pessoas, na maior reestruturação da companhia desde a pandemia. A justificativa, no entanto, foge do roteiro de crise. Segundo o CEO Dara Khosrowshahi, a economia gerada será reinvestida diretamente no negócio para, entre outras coisas, baixar o preço das corridas.

A promessa foi feita durante a conferência Communacopia + Technology, do Goldman Sachs, onde o executivo detalhou a nova estratégia. A leitura é que a Uber está usando uma combinação de reestruturação corporativa e ganhos de eficiência, em parte impulsionados por inteligência artificial, para se tornar mais agressiva em preço e solidificar sua posição de mercado antes que novos concorrentes, especialmente os autônomos, ganhem escala.

A nova equação da eficiência

Para Khosrowshahi, os cortes permitirão uma estrutura de gestão mais "horizontal" e menos complexa. Ele afirmou que a IA tem gerado "ventos favoráveis reais no que se refere à produtividade", uma visão que ecoa em todo o setor de tecnologia. A aposta é que a automação de tarefas e a otimização de processos podem compensar uma força de trabalho menor, gerando mais valor por funcionário. É uma tese que agrada Wall Street.

O movimento da Uber não é isolado. A Block, fintech de Jack Dorsey, viu suas ações subirem após anunciar cortes de 40% da equipe em uma iniciativa declarada de eficiência via IA. Contudo, a transição nem sempre é linear. A Meta, por exemplo, precisou reverter algumas decisões após uma grande reestruturação, pedindo a ex-gestores que reassumissem suas posições. A eficiência prometida pela IA ainda está em fase de experimentação corporativa.

A estratégia "haltere" e a sombra da Waymo

A redução de preços não virá apenas das demissões. Khosrowshahi revelou que os custos com seguros nos EUA, que subiram mais de 50% por corrida nos últimos anos, finalmente começaram a cair. Essa economia, somada à dos cortes, alimenta o que ele chama de "estratégia haltere": usar as margens de produtos premium, como o Uber Black, para subsidiar ofertas de menor custo, a exemplo da modalidade "Espere e Economize".

Essa manobra de preços é também uma resposta direta à crescente ameaça dos veículos autônomos. A relação da Uber com a Waymo, da Alphabet, tornou-se tensa. Embora parceiras em algumas cidades, a Waymo planeja oferecer corridas em seu próprio aplicativo a partir de 2028 e já se aliou à concorrente Lyft em Nashville. A promessa de corridas mais baratas é, portanto, uma tentativa de fidelizar usuários antes que a competição se torne ainda mais acirrada.

A Uber apresenta uma narrativa coesa de que uma operação mais enxuta e tecnologicamente otimizada pode beneficiar o consumidor final. O mercado parece comprar a tese, com as ações reagindo positivamente aos anúncios de cortes. Resta saber se a promessa de preços menores se sustentará diante da complexa execução de uma reestruturação interna e da inevitável batalha contra rivais humanos e autônomos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune