A fatia que a Uber retém de cada corrida está em trajetória de alta, segundo um estudo recente que analisou o histórico de viagens de motoristas em Dallas, Miami e Tampa ao longo de quase uma década. A pesquisa, conduzida por Len Sherman, professor da Columbia Business School, indica que a empresa passou a reter mais de 50% do valor total das tarifas em algumas cidades, um salto significativo em comparação aos 15% a 20% registrados há dez anos.

Este movimento, que a Uber contesta, é apontado como o motor por trás da recente virada financeira da companhia. A análise sugere que a mudança na dinâmica de precificação, especificamente a adoção de tarifas antecipadas, permitiu que a plataforma desvinculasse o valor pago ao motorista do preço cobrado do passageiro, aumentando sua margem de lucro de forma estrutural.

A mudança no modelo operacional

Historicamente, a relação entre o valor da corrida e o pagamento do motorista era direta e previsível. Há uma década, a Uber operava com uma comissão fixa, o que garantia que os ganhos dos motoristas acompanhassem o crescimento das tarifas. A partir de 2019, esse modelo começou a divergir, com cortes nas remunerações que se tornaram mais evidentes em 2022, com a implementação do sistema de preços dinâmicos baseados em algoritmos.

Sherman argumenta que o uso de algoritmos para precificar viagens individualmente, sem uma métrica de tempo ou distância transparente, confere à Uber um controle sem precedentes sobre a margem de lucro. Enquanto a empresa afirma que sua taxa média de retenção foi de 21% no terceiro trimestre de 2025, o estudo sugere que, na prática, o impacto para o motorista em mercados específicos é substancialmente maior.

O mecanismo de lucro da Uber

O sucesso financeiro da Uber, que viu suas reservas brutas crescerem 18% para US$ 29,7 bilhões em 2025, está intrinsecamente ligado à sua capacidade de extrair valor de cada transação. A empresa utiliza esse fluxo de caixa para financiar novas frentes de negócio, como reservas de hotéis e expansão em outros setores de serviços, mantendo o transporte por aplicativo como sua principal fonte de receita.

A comparação com outros marketplaces digitais, como eBay ou Etsy, que mantêm taxas entre 10% e 15%, coloca a estratégia da Uber em um patamar de retenção elevado. A empresa defende que sua estrutura de custos e a complexidade logística do transporte justificam essa diferença, mas a falta de transparência nos dados de retenção continua a ser um ponto de atrito entre a plataforma e seus parceiros.

Tensões no ecossistema de gig economy

As implicações dessa estratégia afetam diretamente os motoristas, que relatam dificuldades crescentes em manter a rentabilidade da atividade. A desconexão entre o que o passageiro paga e o que o motorista recebe cria um cenário onde a eficiência algorítmica da empresa é percebida como uma erosão da renda do trabalhador. Reguladores ao redor do mundo, incluindo no Brasil, observam de perto como essas plataformas definem suas margens.

Para os concorrentes, a estratégia da Uber define o teto do mercado. Se a líder de mercado consegue sustentar taxas de retenção elevadas sem perder volume, os demais players sentem a pressão para ajustar seus próprios modelos, o que pode levar a um ciclo de redução de ganhos para os motoristas em todo o setor de mobilidade urbana.

Perspectivas e incertezas

O debate sobre a transparência das taxas de serviço da Uber está apenas começando. A disponibilidade de dados mais granulares, como os utilizados no estudo de Sherman, oferece aos reguladores e ao público uma base para questionar se o modelo atual é sustentável a longo prazo ou se ele depende excessivamente da compressão dos ganhos dos motoristas.

O que permanece incerto é a reação dos consumidores diante de possíveis aumentos de tarifa para compensar a pressão dos motoristas por melhores condições. A capacidade da Uber de equilibrar a satisfação dos três pilares — passageiros, motoristas e acionistas — será o grande teste para a gestão de Dara Khosrowshahi nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider