Enquanto o real opera com relativa estabilidade, um novo fator de risco se desenha no horizonte macroeconômico brasileiro. Um relatório do UBS Global Wealth Management, liderado pela economista Solange Srour, alerta que a crescente concentração da dívida pública em títulos atrelados à Selic (LFTs) cria uma vulnerabilidade cambial latente.
A tese é que, em um cenário de deterioração da confiança fiscal, a alta liquidez desses papéis pode facilitar uma rápida fuga de investidores locais para o dólar. O que hoje é um porto seguro para o investidor poderia se converter no gatilho para uma desvalorização abrupta da moeda, testando as defesas do Banco Central.
A Mecânica da Dominância Fiscal
O risco não reside na exposição cambial direta do governo — o setor público é credor líquido em moeda estrangeira. A transmissão do estresse ocorreria pelo comportamento dos detentores dos títulos. Em um cenário adverso, a demanda doméstica por proteção em dólar aumentaria ao mesmo tempo em que o fluxo de capital externo diminuiria, pressionando a taxa de câmbio.
É nesse ponto que a estrutura da dívida se torna uma armadilha, configurando o que a teoria econômica chama de “dominância fiscal”. Se o Banco Central elevasse a Selic para conter a desvalorização do real, o custo da dívida indexada explodiria, agravando a crise fiscal que originou o problema. Segundo o Tesouro, cada ponto percentual de alta na Selic representa um custo adicional de R$ 60,6 bilhões na dívida bruta.
O UBS ressalta que o Brasil não se encontra nesse cenário crítico. Contudo, o banco aponta um indicador a ser monitorado: o pequeno prêmio que o Tesouro já tem pago para emitir LFTs, os papéis mais seguros do mercado local. Embora insuficiente para caracterizar uma ruptura, o sinal sugere que a percepção de risco já não é nula e merece vigilância constante dos gestores e do próprio governo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





