A guerra na Ucrânia, um conflito de atrito que consome armamentos em ritmo acelerado, tem revelado uma demanda crítica por drones de ataque simples e baratos. Pilotos e analistas ucranianos apontam que a prioridade não está em tecnologias de ponta ou recursos supérfluos, mas sim em plataformas que possam ser produzidas em massa, adaptadas com facilidade e ajustadas diretamente na linha de frente. Essa necessidade contrasta fortemente com a abordagem de muitos fabricantes de defesa ocidentais, que tendem a supercomplicar seus designs, elevando custos e, segundo relatos, distanciando-se das realidades do campo de batalha.
Dmytro "Liber" Zhluktenko, ex-operador de drones e atual analista de lições aprendidas no 413º Regimento de Sistemas Não Tripulados "RAID" da Ucrânia, expressou essa carência de forma contundente. "Precisamos de algo que funcione muito bem, mas que não tenha características supérfluas", afirmou à Business Insider. Ele criticou a indústria de defesa ocidental por "errar tanto" nesse aspecto, especialmente no que diz respeito aos drones de ataque FPV (first-person view). "Precisamos de algo que seja realmente básico", ressaltou, descrevendo a necessidade de centenas de milhares de unidades simples, confiáveis e fáceis de afinar, sem a adição de "autonomia extra, navegação extra ou qualquer recurso desse tipo".
A Flexibilidade dos Designs Simples
A simplicidade dos drones não é apenas uma questão de custo, mas também de flexibilidade operacional. No front ucraniano, soldados e unidades frequentemente modificam armas e sistemas para mantê-los relevantes diante das mudanças constantes no campo de batalha. Algumas unidades até mantêm centros de P&D próprios para adaptar equipamentos. A preferência recai sobre plataformas genéricas e básicas que possam ser reconfiguradas, atualizadas ou equipadas com diferentes componentes, de forma análoga a um kit de Lego. Empresas ucranianas e estrangeiras que colaboram com as unidades militares reconhecem essa dinâmica, trabalhando com engenheiros para manter os produtos atualizados e, muitas vezes, se surpreendendo com as inovações improvisadas pelos soldados.
Essa necessidade de modularidade e adaptabilidade é cada vez mais reconhecida pela indústria. Fabricantes estão desenvolvendo produtos com essa característica em mente, tanto para facilitar suas próprias atualizações quanto para permitir que os soldados realizem modificações no front. A capacidade de "sintonizar nós mesmos, trocar componentes conforme necessário, porque esse é o processo normal" é fundamental, segundo Zhluktenko. Ele considera "absurdo" que, apesar da vasta capacidade industrial do Ocidente, não se veja a produção em larga escala de sistemas simples e eficazes. Muitos fabricantes ocidentais, argumenta ele, ainda estão presos a uma doutrina de produção em pequenas quantidades, com recursos adicionais que "não são tão relevantes" para o contexto de combate ucraniano.
O Argumento por Quantidade e Custo-Benefício
As observações de Zhluktenko ecoam advertências de autoridades ocidentais e ucranianas sobre os limites de depender de um pequeno número de armas altamente avançadas. A guerra na Ucrânia demonstrou que conflitos modernos em larga escala podem exigir um volume muito maior de equipamentos mais baratos e menos sofisticados. Embora a Ucrânia continue a desenvolver e adquirir tecnologia de drones avançada, incluindo recursos como autonomia, que são cruciais para certas tarefas, a necessidade de drones mais simples e em maior número permanece vital. Empresas ucranianas como SkyFall e General Cherry estão na vanguarda dessa produção em escala.
Uma representante da TechEx, empresa ucraniana de drones e tecnologia, apontou que fabricantes ocidentais muitas vezes precisam lidar com regulamentações mais rigorosas em tempos de paz. Isso pode resultar na adição de "níveis de software e hardware adicionais", em vez de um sistema "nu, funcional e pronto para uso". Essa complexidade pode "supercomplicar a operação do sistema" e tornar o processo de fabricação mais intrincado, dificultando a produção em larga escala que algumas empresas ucranianas conseguem. A diferença é descrita como um contraste entre "operações em tempo de guerra e operações em tempo de paz", onde prioridades e processos podem divergir significativamente.
Implicações para a Indústria de Defesa Ocidental
O conflito na Ucrânia serve como um laboratório a céu aberto para a indústria de defesa global. A lição para o Ocidente, segundo o ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, é a necessidade de "quantidades muito maiores de armamento barato". O Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, também enfatizou que "a velocidade é essencial, não a perfeição". Drones são centrais na luta ucraniana, respondendo por até 95% das perdas da linha de frente russa, mas seu uso eficaz depende da implantação de grandes números, com a consciência de que muitos não atingirão seus alvos. Portanto, a fabricação de sistemas baratos e funcionais é crucial.
Zhluktenko sugere que, no domínio dos drones, a mentalidade deveria ser de "gastar milhares de dólares, não centenas de milhares". Essa perspectiva desafia o modelo tradicional de desenvolvimento de defesa ocidental, que muitas vezes prioriza a superioridade tecnológica individual sobre a capacidade de produção em massa e a adaptabilidade rápida. A capacidade de inovação e modificação no front ucraniano demonstra um modelo alternativo, onde a colaboração próxima entre operadores e fabricantes pode levar a soluções mais eficazes e econômicas em cenários de conflito de alta intensidade.
O futuro da guerra, como evidenciado na Ucrânia, parece pender para a agilidade e a escala. A capacidade de produzir e implantar rapidamente um grande número de drones eficazes, mesmo que não sejam os mais avançados tecnologicamente, pode ser um fator decisivo. A questão que permanece é se a indústria de defesa ocidental conseguirá adaptar suas doutrinas e processos para atender a essa demanda emergente, priorizando a simplicidade e a quantidade em detrimento da complexidade e do custo, sem comprometer a segurança e a eficácia em cenários de conflito modernos. A Ucrânia continua a liderar pelo exemplo, mostrando que, em tempos de guerra, a inovação pode vir da simplicidade e da necessidade. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





