Pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), sob a liderança do cientista Francisco Trujillo, desenvolveram um método inovador para a extração de café que elimina a necessidade de água quente. O processo substitui o calor convencional por ondas ultrassônicas, frequências sonoras acima do limite audível humano que operam a temperatura ambiente. A técnica, segundo a equipe, consegue extrair com precisão óleos, cafeína e compostos aromáticos em menos de três minutos, mantendo a integridade sensorial da bebida.
Tradicionalmente, a preparação de um espresso exige um ritual rigoroso de temperatura e pressão. O método padrão, consolidado na Itália há um século, utiliza água fervente forçada a nove bares de pressão através do pó de café. A inovação da UNSW propõe uma mudança de paradigma ao trocar a energia térmica por energia mecânica, visando ganhos significativos de eficiência energética, especialmente para a produção industrial de bebidas prontas.
A mecânica da cavitação acústica
O funcionamento do dispositivo baseia-se em um transdutor metálico acoplado ao portafiltro da máquina, que induz vibrações de alta frequência no sistema. Essas ondas propagam-se pelo líquido e pelo pó, desencadeando um fenômeno conhecido como cavitação acústica. O processo cria microbolhas que colapsam violentamente, gerando microjatos e forças mecânicas que atuam como escovas microscópicas sobre as partículas de café.
Essas forças erodem a superfície do pó, facilitando a liberação acelerada de compostos solúveis. Medições laboratoriais confirmaram que o sistema entrega 64,8 watts de potência acústica a partir de um gerador de 100W, com evidências de erosão física detectadas por microscopia eletrônica. Diferente do cold brew, que exige horas de infusão, a técnica por ultrassom entrega resultados em minutos, preservando o corpo e a intensidade típicos do espresso.
Eficiência e qualidade sensorial
Os testes de desempenho indicaram que o café extraído por ultrassom atingiu níveis de sólidos totais dissolvidos (TDS) entre 8,74% e 9,01%, comparáveis aos obtidos por métodos tradicionais. O rendimento de extração situou-se em 18,03%, alinhando-se aos padrões de equilíbrio definidos pela Specialty Coffee Association (SCA). Em avaliações cegas com 100 consumidores, não houve distinção significativa entre o espresso tradicional e o ultrasônico.
Para a indústria, a economia de até 75% de energia representa um diferencial competitivo estratégico. A capacidade de produzir concentrados de café a frio permite que empresas otimizem processos de envase e reduzam custos logísticos. A tecnologia abre portas para uma nova geração de produtos de café engarrafado, sem comprometer a qualidade percebida pelo consumidor final.
Implicações para o mercado de café
Embora o impacto para o consumidor doméstico possa ser modesto, o potencial para o setor de bebidas prontas é vasto. A simplificação do processo de extração reduz gargalos operacionais e demandas energéticas em escalas industriais. Concorrentes no mercado de bebidas frias podem encontrar na tecnologia de ultrassom uma forma de elevar a qualidade de seus produtos, desafiando a percepção atual sobre o café gelado industrializado.
No Brasil, país que lidera a produção global, a adoção de tecnologias de eficiência energética é um tema crescente. A transição para métodos que reduzam o consumo de recursos na cadeia de processamento pode se tornar um novo padrão de sustentabilidade. A viabilidade econômica dessa transição dependerá da escalabilidade dos transdutores e da integração com linhas de produção existentes.
Perguntas em aberto e outlook
A transição do laboratório para o chão de fábrica industrial permanece como o principal desafio técnico. É necessário observar como a durabilidade dos transdutores se comportará sob uso contínuo em ambientes de alta demanda. Além disso, a aceitação por parte da indústria de torrefação, tradicionalmente conservadora em seus processos, será um fator determinante para a adoção em larga escala.
O futuro da preparação de café pode não depender apenas da qualidade do grão, mas da precisão da física aplicada ao processo. A pesquisa sugere que, ao dominar a mecânica da extração, a necessidade de calor pode se tornar opcional. Resta saber se o mercado consumidor, acostumado ao ritual do calor, adotará a eficiência tecnológica como um novo padrão de excelência.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





