Em 15 de fevereiro de 1961, o produtor Dino De Laurentiis e o diretor Richard Fleischer tomaram uma decisão sem precedentes na história do cinema: filmar a cena da crucificação de Cristo para o filme ‘Barrabás’ durante um eclipse solar total. A equipe teve exatos 165 segundos de escuridão completa, uma única chance para capturar uma das sequências mais icônicas do cinema épico.

A manobra, decidida apenas 48 horas antes do evento astronômico que cruzaria a Itália, foi uma aposta de alto risco. Ela simboliza não apenas a grandiosidade, mas também o caos calculado que marcou as superproduções da era em que Roma era a “Hollywood sobre o Tibre”. Mais do que um truque visual, o eclipse foi o clímax de uma produção marcada pela improvisação e pela escala monumental.

Uma aposta cósmica

Não havia manual para o que a equipe de ‘Barrabás’ se propôs a fazer. Segundo reportagem do site espanhol Xataka, a equipe técnica, liderada pelo diretor de fotografia Aldo Tonti, subiu ao vilarejo de Roccastrada, na Toscana, e preparou-se para o desconhecido. Tonti removeu os filtros das câmeras e abriu os diafragmas ao máximo, confiando que a película reagiria a um tipo de luz que nunca havia sido registrada daquela forma no cinema.

A aposta funcionou, mas os detalhes da façanha permanecem envoltos em mito. Fontes divergem sobre o número de câmeras utilizadas — algumas citam três, outras mais de quarenta. A própria localização é disputada, com algumas fontes anglo-saxãs mencionando Nice, na França. Essa incerteza apenas amplifica a lenda de uma equipe que correu contra o relógio cósmico e venceu.

O caos organizado de De Laurentiis

O episódio do eclipse não foi um delírio isolado, mas o método que regia toda a produção. Com um orçamento de US$ 10 milhões — uma fortuna na época —, De Laurentiis orquestrou um espetáculo de excessos. Para as cenas de arena, mobilizou mais de 9 mil extras, transportados em 75 ônibus de vilarejos vizinhos. Entre eles, estava uma jovem americana de 18 anos que viria a se tornar um ícone trágico: Sharon Tate.

A produção foi um turbilhão de decisões erráticas e logísticas complexas. O ator Anthony Quinn foi contratado às pressas para substituir Yul Brynner, e cenas cruciais, como o incêndio de Roma, foram filmadas em uma única tomada, queimando cenários inteiros. Do alto do vulcão Etna às arenas de Verona, ‘Barrabás’ foi um exercício de força bruta cinematográfica, onde o espetáculo por trás das câmeras rivalizava com a história na tela.

Embora o filme não tenha conquistado os principais prêmios da Academia — ofuscado por ‘Lawrence da Arábia’ —, sua produção se tornou matéria de lenda. A cena do eclipse, em particular, permanece como um testemunho de uma era em que a ambição de um produtor e a coragem de um diretor podiam, literalmente, mover céus e terra para criar uma imagem inesquecível.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka