A dinâmica do mercado de revenda na Europa atravessa um momento de consolidação e contraste estratégico. De um lado, a Vinted, fundada na Lituânia em 2008, consolidou-se como uma potência global, encerrando 2025 com receitas de 1,1 bilhão de euros. Do outro, a espanhola Wallapop, nascida em 2013 com foco em transações locais e geolocalizadas, mantém sua relevância como líder no mercado ibérico, apesar de operar em uma escala financeira distinta, segundo reportagem do Xataka.

O contraste entre as duas empresas não é apenas de faturamento, mas de filosofia operacional. A Vinted, ao eliminar comissões para vendedores, transferiu o custo transacional para o comprador, criando um ecossistema que prioriza a liquidez da oferta. A Wallapop, por sua vez, construiu sua base sobre a conveniência do encontro pessoal, evoluindo para um modelo de logística integrada que gera receitas robustas, mas que ainda enfrenta o desafio de equilibrar a operação global com a rentabilidade histórica do seu mercado de origem.

A origem da divergência estratégica

A trajetória da Wallapop está intrinsecamente ligada ao conceito de proximidade. Ao priorizar a geolocalização em seus primeiros anos, a empresa fundada por Agustín Gómez, Gerard Olivé e Miguel Vicente endereçou uma dor real: o custo e a complexidade logística de enviar itens grandes. A estratégia de marketing agressiva, realizada em parceria com a Atresmedia, transformou a marca em um hábito de consumo na Espanha, focando em trocas presenciais que dispensavam taxas de intermediação.

Em contrapartida, a Vinted nasceu de uma necessidade logística de desapego, evoluindo para uma plataforma que abstrai a distância entre os usuários. A ausência de comissão para o vendedor tornou-se seu principal motor de crescimento, permitindo que o catálogo crescesse exponencialmente. Enquanto a Wallapop apostava no bairro, a Vinted apostava na rede, facilitando o fluxo de mercadorias entre países de forma padronizada, o que explica sua vantagem competitiva em volume de transações ao longo da última década.

Mecanismos de monetização e escala

A diferença nos modelos de negócio reflete-se diretamente nas demonstrações financeiras. A Vinted cobra do comprador uma taxa de proteção fixa somada a uma porcentagem sobre o valor do item, garantindo receita mesmo em transações de baixo valor unitário. Esse modelo permitiu à empresa atingir 813 milhões de euros em receitas em 2024, com um crescimento expressivo de 36% em relação ao ano anterior, consolidando sua posição como líder em escala transacional.

A Wallapop, embora tenha registrado 101 milhões de euros em receitas em 2024, diversificou suas fontes de lucro. Além da logística, a empresa capitaliza sobre a visibilidade dos anúncios, um serviço que gerou 22 milhões de euros no mesmo período. Esse mecanismo é crucial, pois desvincula parte da receita do fechamento da venda, permitindo que a plataforma monetize o tráfego de usuários mesmo quando o negócio não se concretiza, uma estratégia inteligente para um marketplace de alta frequência.

Tensões competitivas e o papel da Naver

A aquisição da Wallapop pela sul-coreana Naver, concluída em janeiro de 2026 por 600 milhões de euros, marca uma nova fase para a empresa catalã. Ao se tornar a ponta de lança da Naver na Europa, a Wallapop ganha fôlego financeiro e sinergias com a Poshmark, também sob controle do grupo coreano. Para o mercado europeu, isso sugere que a competição no setor de 'recommerce' deixará de ser apenas uma disputa entre apps de nicho para se tornar uma guerra de ecossistemas tecnológicos globais.

Para os reguladores e consumidores, o cenário impõe questões sobre a concentração do mercado. Com a Vinted investindo pesado em expansão geográfica e serviços financeiros, como o Vinted Pay, a pressão sobre as margens de lucro tende a aumentar. A sustentabilidade dessa expansão, contudo, permanece sob escrutínio, especialmente após a queda no lucro líquido da Vinted em 2025, fruto de investimentos em infraestrutura e novos mercados.

O futuro do mercado de usados

O que permanece incerto é se o modelo de 'proximidade' da Wallapop será capaz de escalar globalmente sob a tutela da Naver ou se a conveniência transacional da Vinted ditará o padrão definitivo do setor. A trajetória de redução de prejuízos da Wallapop indica que a eficiência operacional está sendo priorizada, mas a escala da Vinted impõe um ritmo de crescimento difícil de replicar sem grandes investimentos em capital.

Observar a evolução da integração da Wallapop com as demais empresas do portfólio da Naver será fundamental para entender se o 'recommerce' se tornará um serviço de utilidade pública ou se permanecerá como uma arena de disputa por taxas e conveniência. A estabilização dos modelos de negócio, após a fase de expansão a qualquer custo, definirá quem sobreviverá à próxima década de consumo sustentável.

A disputa entre Wallapop e Vinted ilustra a transição do mercado de usados de uma curiosidade local para uma peça central da economia digital. A questão principal não é mais quem possui o maior inventário, mas quem consegue construir o sistema de confiança mais eficiente para o consumidor moderno. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka