Uma grande retrospectiva dedicada às joias de Vivienne Westwood encerrará sua turnê mundial no V&A Dundee, na Escócia, em março de 2027. A exposição, intitulada "Vivienne Westwood & Jewelry", reúne mais de 600 peças de arquivo e de passarela que cobrem quatro décadas da carreira da icônica designer britânica, falecida em 2022.

O evento serve como um ponto de reflexão sobre o legado de Westwood e a contradição que define sua marca: a construção de um império de moda global a partir da subversão de símbolos do establishment. Segundo reportagem da Highsnobiety, o cerne dessa história está em seu logotipo mais famoso, o Orbe, cuja origem remonta, ironicamente, à própria monarquia que ela tanto criticava.

O paradoxo do Orbe

Em meados da década de 1980, com o movimento punk já fragmentado, Westwood buscava novos caminhos criativos. Foi durante o desenvolvimento de uma coleção, enquanto imaginava um suéter que o então Príncipe Charles poderia usar, que ela se deparou com o Orbe Soberano — a esfera de ouro com uma cruz cravejada de joias, parte das Joias da Coroa Britânica desde 1661. A designer viu ali uma oportunidade.

Westwood se apropriou do símbolo da monarquia e adicionou um anel como o de Saturno, inspirado em revistas de astronomia. O gesto uniu tradição e futuro, realeza e ficção científica. O novo emblema, que estreou na coleção de outono/inverno de 1987, tornou-se a assinatura da marca, transformando um ícone de poder divino e hereditário em um logotipo pop e comercializável, uma joia da coroa para as massas.

De alfinetes a pérolas

O Orbe é a peça central, mas o espírito de subversão de Westwood se estendia a todo o seu trabalho com joalheria. Ela transformou o prosaico alfinete de segurança, um item do dia a dia adotado pela estética punk, em peças de luxo. Ao mesmo tempo, incorporou colares de pérolas de três voltas em seus designs, ironizando o elitismo associado ao acessório e ressignificando-o para uma nova geração.

Seu repertório incluía desde correntes que remetiam à cultura bondage até anéis-armadura e brincos inspirados em retratos da era elisabetana. Essa capacidade de misturar iconografia britânica, romantismo do século 18 e uma ética anti-establishment foi o que solidificou seu lugar na história. Westwood não apenas arquitetou a estética punk; ela a empacotou, tornando a rebeldia um produto desejável e duradouro.

A exposição, ao retornar ao Reino Unido, fecha um ciclo. O legado de Westwood deixa uma pergunta no ar: usar as ferramentas simbólicas da monarquia para criticá-la e, ao mesmo tempo, construir um negócio bilionário é a forma mais potente de punk ou sua cooptação definitiva? A resposta, talvez, esteja na própria ambiguidade que ela cultivou por toda a vida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety