A Whoop, empresa de tecnologia vestível (wearable) conhecida por seus dispositivos focados em otimizar o desempenho de atletas de elite, está redefinindo sua estratégia para justificar sua impressionante avaliação de US$ 10,1 bilhões. Em vez de se limitar a corredores e jogadores de futebol, a companhia, liderada por Will Ahmed, agora volta seus olhos para um público inesperado: os beneficiários do Medicare. A iniciativa Whoop Connected Care, um programa piloto que oferece um dispositivo Whoop, assinatura e monitoramento de pressão arterial por terceiros, agora está disponível para americanos com 65 anos ou mais diagnosticados com condições como hipertensão, pré-diabetes, colesterol alto ou obesidade.

A virada para a saúde preventiva

A mudança de foco não é aleatória. Embora atletas como Cristiano Ronaldo e Patrick Mahomes continuem associados à marca, a Whoop observou um crescimento acelerado em seu público de mulheres acima de 60 anos. Esse fenômeno sinaliza uma tendência maior no mercado: a transição do interesse geral em bem-estar para uma busca mais profunda por cuidados de saúde preventivos. Empresas de wearables, cientes desse potencial, estão contratando profissionais médicos, como a Dra. Ami Bhatt, recém-nomeada Chief Medical Officer da Whoop, e buscando parcerias clínicas. O objetivo é conectar os dados coletados pelos dispositivos a insights médicos significativos, abrindo caminho para um público mais amplo e, potencialmente, para o vasto orçamento do Medicare, que ultrapassa US$ 1,2 trilhão.

O papel dos dados e a regulamentação

A Dra. Bhatt, com vasta experiência em saúde digital e no FDA, ressalta que wearables não devem substituir o cuidado clínico, mas sim complementá-lo. A proposta é fornecer aos pacientes e médicos uma compreensão mais abrangente do estado de saúde entre as consultas. Essa abordagem, no entanto, ocorre em um cenário regulatório complexo. Historicamente, o FDA diferenciava claramente entre dispositivos de bem-estar geral e dispositivos médicos, estes últimos sujeitos a regras rigorosas. No entanto, empresas como Whoop e Oura têm desafiado essa distinção, com a nova geração de wearables oferecendo insights de nível clínico. O FDA, em resposta, emitiu novas diretrizes que concedem maior flexibilidade a dispositivos de bem-estar para medir a fisiologia associada a condições crônicas, um movimento que beneficia diretamente empresas como a Whoop, que enfrentou questionamentos sobre suas funcionalidades de monitoramento de pressão arterial.

Implicações para o mercado de wearables

A estratégia da Whoop de se aprofundar no setor de saúde é compartilhada por outras empresas de ponta no mercado de wearables, como a Oura, que também foi avaliada em bilhões de dólares. Ambas buscam evitar o destino de muitos dispositivos de hardware que falharam ao não se adaptarem às mudanças nos gostos dos consumidores. Ao integrar-se mais profundamente ao ecossistema de saúde, seja através de parcerias com provedores de saúde virtual, como a Oura fez com a Counsel Health, ou oferecendo serviços como upload de registros médicos e exames de sangue com parceiros como a Quest Diagnostics, a Whoop e seus concorrentes visam criar um valor duradouro. O próprio dispositivo de ponta da Whoop, o Whoop MG (Medical Grade), apesar de não ser um dispositivo médico aprovado pelo FDA, sinaliza essa ambição de se posicionar como uma ferramenta essencial na gestão da saúde.

Perguntas em aberto e o futuro da saúde conectada

O movimento da Whoop para o mercado de saúde, especialmente o de idosos, levanta questões importantes sobre a acessibilidade e a eficácia a longo prazo dessas tecnologias. Será que os dados contínuos, mesmo que valiosos, serão suficientes para mudar comportamentos e melhorar resultados de saúde de forma sustentável para essa população? Como a integração com o Medicare e outros sistemas de saúde pública moldará o desenvolvimento futuro desses dispositivos? A empresa está pavimentando um caminho promissor, mas a jornada para consolidar wearables como pilares da saúde preventiva e do envelhecimento saudável está apenas começando, exigindo adaptação contínua e uma profunda compreensão das necessidades dos usuários e do complexo sistema de saúde.

A aposta da Whoop em dados contínuos e saúde preventiva, mirando agora o público sênior, representa um divisor de águas para o mercado de wearables. A validação dessa estratégia, contudo, dependerá da capacidade da empresa em demonstrar resultados concretos e em navegar o intrincado cenário regulatório e de pagamentos do setor de saúde. O futuro parece promissor, mas repleto de desafios que exigirão inovação e adaptação constantes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company