As relações comerciais entre Washington e Ottawa, historicamente cordiais, azedaram. Após o colapso das negociações no último fim de semana, os dois países impuseram tarifas bilionárias um ao outro, colocando em risco um fluxo comercial que somou US$ 872,3 bilhões em 2025. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, acusou os EUA de “pedir muito e oferecer pouco”.
Para Wilbur Ross, que liderou a renegociação do NAFTA como secretário de Comércio no primeiro mandato de Donald Trump, o problema é mais profundo que as planilhas. Em entrevista à Fortune, ele argumenta que o entrave atual é uma “verdadeira mudança de maré” no sentimento popular canadense. “Os canadenses adotaram uma atitude muito negativa em relação aos EUA”, afirmou Ross, sugerindo que, para a política de Ottawa, hoje há mais vantagens em se opor a Washington do que em cooperar.
O sentimento como barreira
A análise de Ross encontra eco em provocações recentes. A imprensa canadense reportou um áudio vazado no qual o vice-presidente J.D. Vance ridiculariza o premiê Carney. O próprio Trump tem contribuído para a animosidade, referindo-se ao Canadá como o “51º estado” e sugerindo renomear o Lago Ontário para “Lago América”. Para Ross, são metáforas sobre a dependência econômica do vizinho, mas que ferem a soberania e alimentam a hostilidade.
O resultado prático, segundo a leitura do ex-secretário, é que qualquer proposta americana, independentemente de seus méritos técnicos, enfrenta uma barreira política quase intransponível. A oposição tornou-se uma plataforma eleitoralmente vantajosa no Canadá, transformando a opinião pública em um ativo de negociação – ou de obstrução.
O impasse técnico
Por trás da retórica, as disputas são velhas conhecidas: gastos com defesa, tarifas sobre laticínios e o chamado “transshipment” — a prática de importar produtos, como os chineses, via Canadá para evitar taxas americanas. A administração Trump busca novos termos para esses pontos, mas, na visão de Ross, não deve se esforçar para retomar o diálogo. “Não vejo os EUA tomando a iniciativa”, disse ele, acreditando que o ônus recairá sobre o lado canadense.
A equipe de Carney, por sua vez, insiste que foi “pragmática, paciente e persistente”. O impasse agora pode ser decidido pela macroeconomia. Com a inflação elevada em ambos os países, a pressão sobre os preços ao consumidor pode forçar uma volta à mesa. Ross aposta que o Canadá, com uma “economia muito menor”, cederá primeiro.
Enquanto a diplomacia esfria, a questão que fica é se a lógica econômica prevalecerá sobre a animosidade política, ou se a nova era de tensões veio para ficar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





