Em 2012, a cidade de Yonkers, vizinha a Nova York, concluiu um projeto que inverteu quase um século de lógica urbanística: demoliu um estacionamento para trazer de volta à superfície um trecho do rio Saw Mill, que corria sob o concreto desde a década de 1920. O que antes era uma laje de asfalto, a Larkin Plaza, transformou-se em um parque linear.

A aposta, que custou US$ 18,8 milhões, não era apenas paisagística. A tese era que a restauração de um ativo ambiental degradado poderia funcionar como um catalisador para a regeneração urbana e ecológica. A velocidade com que a natureza respondeu e a subsequente revitalização econômica da área oferecem um estudo de caso poderoso para metrópoles que, como as brasileiras, também esconderam seus rios em nome do progresso.

Do estorvo ao protagonismo

O rio Saw Mill foi a espinha dorsal do desenvolvimento industrial de Yonkers, movendo moinhos desde o século XVII. Contudo, com o crescimento da cidade, o curso d'água tornou-se um obstáculo, agravado pela poluição. A solução, típica do urbanismo do século XX, foi canalizá-lo e, por fim, enterrá-lo. O rio que deu origem à cidade virou um problema a ser escondido, uma história que ecoa em rios como o Tietê em São Paulo ou o Arrudas em Belo Horizonte.

O projeto de "descobrimento" do rio foi uma obra de engenharia complexa. Em vez de simplesmente quebrar o concreto, os engenheiros criaram um novo leito de 244 metros para desviar parte da vazão. Pragmaticamente, o antigo duto subterrâneo foi mantido como uma válvula de segurança para escoar o excesso de água durante chuvas fortes, mitigando o risco de inundações no novo parque.

A vida que retorna ao centro

A resposta do ecossistema foi surpreendentemente rápida. Segundo reportagem do site espanhol Xataka, em apenas seis meses os cerca de 1.300 m² de novo habitat aquático já abrigavam enguias-americanas, caranguejos-azuis, tartarugas e peixes. A vegetação nativa plantada nas margens rapidamente atraiu insetos e pássaros, recriando uma pequena cadeia alimentar. O objetivo não era um canal ornamental, mas um ecossistema funcional.

O impacto extrapolou a biologia. O espaço antes dedicado a carros passou a sediar feiras, shows e atividades comunitárias, tornando-se o centro da vida pública. A recuperação do rio atraiu novos empreendimentos imobiliários e comerciais, ajudando a reverter um quadro de abandono e estagnação econômica. O sucesso foi tanto que a cidade já planeja descobrir outros trechos do Saw Mill.

A experiência de Yonkers serve como uma contundente lição sobre o valor dos ativos naturais. Onde o planejamento do século XX viu um obstáculo a ser pavimentado, a cidade redescobriu uma fonte de vitalidade ecológica, social e econômica. A pergunta que fica é quantos rios e oportunidades semelhantes permanecem enterrados sob o asfalto das cidades brasileiras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka