O estúdio Zyva, sediado em Paris e fundado por Anthony Authié, transformou seu próprio apartamento de 60 m² em um showroom que serve como um manifesto para o neo-ornamento. Em um contraponto direto à máxima modernista de Adolf Loos, que declarou "ornamento é crime", o estúdio propõe que a ornamentação não seja um mero acabamento, mas sim o ponto de partida para a criação arquitetônica e de interiores. A abordagem desafia a hegemonia do "forma segue a função", abrindo espaço para a imaginação e a ficção no design.
O Neo-Ornamento como Ponto de Partida
Longe de ser uma releitura nostálgica ou um pastiche de estilos passados, o apartamento de Authié questiona a própria hierarquia do design. Em vez de vestir uma arquitetura já definida, os elementos ornamentais — como flores monumentais que se elevam do chão ao teto, com pétalas em tons vibrantes de amarelo e vermelho, e correntes gigantes em azul, vermelho e amarelo, reminiscentes de brinquedos infantis ampliados — são apresentados como elementos primordiais. Cada peça é concebida tanto como objeto quanto como seu próprio ornamento, integrando-se de forma indissociável à estrutura espacial.
A Sinfonia de Materiais e Referências
O design interior do apartamento é marcado por uma audaciosa combinação de materiais nobres e referências à cultura pop, sem qualquer hierarquia entre eles. O terrazzo, um material clássico, aparece em diferentes densidades e tamanhos de agregado, cobrindo o piso, a bancada da cozinha e a mesa de centro. Esta escolha cria uma unidade visual e tátil, um "fio mineral" que percorre todo o espaço. Em contraste e complemento, elementos como a mesa de centro, projetada em colaboração com a Mosaic Factory, combinam o terrazzo com uma estrutura tubular inspirada em canos do videogame Mario Bros. A cama no quarto, feita de argila, apoia-se em uma cabeceira metálica onde os dutos de ventilação expostos se tornam um elemento estético, invertendo a lógica do que é usualmente ocultado.
Conexões e Implicações
A abordagem do Zyva Studio sugere uma nova forma de pensar o espaço interior, onde a ornamentação não é um adendo, mas sim a essência do projeto. A integração de elementos como estampas de vaca no tapete, cortinas com padrão dálmata, puxadores em forma de estrela e portas perfuradas com cruzes e pontos demonstra a intenção de criar um universo coeso a partir de elementos aparentemente díspares. Cada motivo parece chamar o próximo, culminando na construção de um mundo singular. Essa liberdade criativa, que abraça tanto a nobreza do terrazzo quanto a irreverência de referências pop, abre um leque de possibilidades para designers e arquitetos que buscam ir além das convenções.
Perguntas em Aberto
O que permanece em aberto é como essa filosofia de neo-ornamento se traduzirá em projetos de maior escala e em diferentes contextos. A capacidade de manter a coesão visual e conceitual em espaços maiores, que demandam soluções mais pragmáticas, será um dos desafios. Além disso, a aceitação do mercado e de potenciais clientes para uma abordagem que prioriza o ornamento como ponto de partida, em detrimento de uma funcionalidade puramente utilitária, ainda está por ser plenamente testada. Observar a evolução do Zyva Studio e a recepção de suas ideias no cenário internacional será crucial para entender o futuro do design de interiores que ousa desafiar o legado modernista.
O apartamento de Anthony Authié em Paris não é apenas um espaço de moradia ou um showroom; é uma declaração de princípios. Ao colocar o ornamento no centro do palco, o Zyva Studio convida à reflexão sobre o papel da estética e da imaginação na arquitetura contemporânea, propondo um caminho onde a beleza e a surpresa são tão fundamentais quanto a própria função.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





