Em análise publicada em março de 2026, o ex-CEO da Microsoft e fundador da plataforma USAFacts, Steve Ballmer, destrinchou a arquitetura fiscal e administrativa dos Estados Unidos. Longe de ser um bloco monolítico, o Estado americano opera por meio de 90.888 entidades governamentais — um número que exclui territórios como Porto Rico e Guam. Essa teia engloba desde o governo federal e 50 estados até milhares de condados, municípios e mais de 39 mil distritos especiais dedicados a serviços específicos. O custo dessa estrutura atingiu US$ 8,9 trilhões em 2023. Desse montante, o governo federal executou US$ 5,1 trilhões diretamente e transferiu US$ 1,1 trilhão para estados e municípios, evidenciando um modelo onde a formulação de políticas e a execução financeira frequentemente habitam esferas distintas.

A descentralização do gasto público

A maior fatia das despesas compartilhadas entre as esferas de governo, representando 19% do total, é destinada ao suporte de indivíduos em situação de vulnerabilidade. Ballmer aponta que 83% desse valor é financiado pelo governo federal, primariamente por meio de transferências para o Medicaid. O programa de saúde, embora financiado majoritariamente por Washington, é administrado pelos estados, que possuem latitude para definir critérios de cobertura além do piso exigido por lei. Em estados com menor renda per capita, como o Mississippi, a contrapartida federal chegou a 76,9% em 2025.

A dinâmica se inverte drasticamente na educação, que consome 15% do orçamento público. Contrariando a retórica política nacional, a análise destaca que apenas 10% dos gastos educacionais têm origem federal — focados em merenda escolar e suporte a áreas de baixa renda. Os 90% restantes são custeados por estados e municípios, dependendo intrinsecamente do modelo de arrecadação local.

No sistema de justiça criminal, que representa 4% dos gastos, a descentralização é ainda mais aguda. A operação é quase integralmente local: existem seis vezes mais oficiais de segurança estaduais e locais do que federais, e 88% da população carcerária americana cumpre pena em prisões fora da jurisdição federal.

Arrecadação fragmentada e o futuro fiscal

A sustentação dos US$ 8,9 trilhões revela uma dependência de fontes distintas conforme a jurisdição. Em 2023, o governo federal arrecadou US$ 4,6 trilhões. Os estados, que levantaram US$ 1,4 trilhão, apoiam-se principalmente em impostos sobre consumo (42%) e renda (38%). Já os governos locais, responsáveis por US$ 960 bilhões em receitas próprias, extraem 69% de seus recursos da taxação de propriedades, o que cria disparidades diretas na capacidade de investimento em serviços básicos, dependendo do valor imobiliário de cada distrito.

Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que a assimetria entre a capacidade de arrecadação local e as obrigações de prestação de serviço é um desafio estrutural comum em repúblicas federativas, frequentemente exigindo um complexo sistema de repasses para evitar o colapso de municípios com bases tributárias mais frágeis.

Essa tensão tende a ganhar novos contornos nos Estados Unidos. Ballmer menciona que o "One Big Beautiful Bill Act", assinado em julho de 2025, iniciará uma transferência gradual de responsabilidades financeiras da esfera federal para os estados. A legislação, cujos efeitos ainda estão sendo implementados, altera o equilíbrio de forças e o fluxo de caixa do pacto federativo americano.

A radiografia apresentada pela USAFacts sublinha que a complexidade do Estado americano não é um desvio de rota, mas o resultado direto de seu desenho constitucional, que reserva aos estados todos os poderes não delegados expressamente a Washington. O desafio que se impõe à gestão pública nos EUA não é apenas o volume de capital movimentado, mas a eficiência da governança em um sistema desenhado, desde a sua origem, para ser intrinsecamente fragmentado.

Fonte · Brazil Valley | Society