Fundadores que criam algo genuinamente novo são como insurgentes. Em entrevista publicada em 12 de agosto de 2026, a estrategista de comunicação Lulu Cheng Meservey argumenta que eles enfrentam incumbentes com mais dinheiro, mais pessoas e mais legitimidade. A única arma capaz de superar essas desvantagens é uma intensidade de crença superior. A função da comunicação, em seu modelo, não é emitir press releases, mas “construir um movimento” em torno de uma ideia contraintuitiva. Meservey, cuja carteira de clientes inclui Anduril e Shopify, aplica lições de contrainsurgência — estudadas por ela em seu mestrado em segurança internacional — ao desafio de lançar uma empresa. O trabalho começa com a convicção do fundador. Se ele não está disposto a “atravessar a ponte”, como Napoleão, ninguém o seguirá. A partir dessa convicção, o objetivo é articular uma visão de mundo tão magnética que o talento certo não consiga ignorá-la.

O Manual 'Go Direct'

A filosofia de Meservey foi forjada em sua parceria com a Anduril. No início da empresa, seu fundador, Palmer Luckey, era “persona non grata” no Vale do Silício e na mídia, recém-saído do Facebook por suas visões políticas. Trabalhar com o Departamento de Defesa era um tabu, e a cobertura da imprensa era uniformemente hostil. A estratégia tradicional de relações públicas era inviável. “Ir direto” não foi uma escolha, mas uma necessidade. Em vez de tentar convencer repórteres, a Anduril foi diretamente a seus clientes e potenciais recrutas, apresentando-se em locais como Quantico e a CIA. Esta abordagem, que Meservey chama de “soberania narrativa”, dá aos fundadores controle total sobre sua história, sem o filtro de intermediários. O manifesto “Go Direct”, que ela publicaria mais tarde, formaliza essa ideia. Para Meservey, o fundador é a única pessoa que pode contar a história com a seriedade necessária, lastreada por sua reputação pessoal. O manifesto de uma empresa, segundo ela, deve funcionar como um “ímã”, deixando claro para as pessoas o que está em jogo e por que elas deveriam deixar seus empregos confortáveis para se juntar a uma “missão provavelmente mortal”.

O Antídoto para o 'Fake'

Hoje, Meservey diagnostica que “tudo parece falso”. A cultura de startups adotou um modelo de lançamentos com “vídeos cinemáticos de baixa qualidade” e engajamento comprado em redes sociais. Quando ela identifica essa prática, afirma que considera não apenas o marketing, mas a empresa e o fundador como “falsos”. O antídoto, segundo ela, é investir em ações que não podem ser falsificadas. Isso inclui clareza de pensamento, como destilar uma ideia complexa em uma analogia poderosa — “a bicicleta para a mente” de Steve Jobs ou “Ozempic para empresas”, como ela mesma sugeriu a um fundador. Inclui também o cultivo de relacionamentos reais e um “retorno à beleza”. Para Meservey, a beleza funciona como um “placar”, um selo de autenticidade que demonstra cuidado e esforço, algo que o conteúdo gerado sem intenção não consegue replicar. É por isso que ela rejeita o uso de templates, argumentando que cada situação é única e merece originalidade. A beleza de um site, a elegância de um manifesto ou a precisão de uma mensagem são, em sua visão, defesas contra a entropia do conteúdo falso.

O framework de Meservey é uma resposta a duas forças: a dificuldade de vender uma visão contraintuitiva e a degradação da autenticidade na era digital. Sua própria trajetória como imigrante, mudando-se da China para a Alemanha, Noruega, Canadá e Estados Unidos, a forçou a desenvolver uma habilidade de “super leitura do ambiente” para sobreviver. Essa sensibilidade para o contexto e para as nuances não ditas da comunicação informa seu trabalho. Ela eleva a narrativa de uma função de marketing para um pilar estratégico, argumentando que, em um mundo saturado de ruído, a visão mais clara, intensa e bem articulada prevalece. A história não é um acessório do produto; é o motor do movimento.

Fonte · Brazil Valley | Business