Em discurso na World AI Conference em Xangai, em 16 de julho de 2026, o líder chinês Xi Jinping apresentou a doutrina de Pequim para a governança global da inteligência artificial. A proposta é um projeto de ordem mundial para a tecnologia, que busca posicionar a China como a principal arquiteta de suas regras. A visão se ancora em quatro princípios: abertura e ganho mútuo; reforço na gestão de riscos; inclusão e aprendizado mútuo entre civilizações; e solidariedade para aprimorar a governança global. O discurso move a China de participante da corrida de IA para uma nação que busca definir os termos do debate, propondo um modelo alternativo ao Ocidental, com foco explícito em atrair o chamado Sul Global para sua esfera de influência normativa.

A Arquitetura da Governança

Xi Jinping estruturou sua visão em quatro pilares. O primeiro, de "abertura e ganho mútuo", defende a IA como um novo motor do crescimento econômico global, incentivando open source, colaboração e compartilhamento para acelerar a inovação. O segundo pilar é a "consciência de risco", com a premissa de que a IA deve ser segura, controlável e permanecer "sempre sob controle humano". Nesta seção, Xi fez uma crítica direta à política externa americana, ainda que sem nomear o país, ao afirmar que a comunidade internacional deve se opor conjuntamente ao "uso excessivo do conceito de segurança nacional no campo da IA".

O terceiro princípio é a "inclusão", argumentando que o desenvolvimento da IA não deve erodir a diversidade das civilizações mundiais ou a singularidade das culturas. A proposta é que os valores da IA sejam moldados pelos "valores comuns da humanidade". Por fim, o quarto pilar é a "solidariedade", defendendo o "verdadeiro multilateralismo" com a ONU em um papel central para formar um framework de governança global baseado em consenso. Este ponto foca em ajudar os países do Sul Global a diminuir o abismo digital e de IA, prevenindo a criação de "novas injustiças históricas".

De Pequim para o Mundo

O discurso não se limitou à teoria. Xi Jinping conectou a visão global às ações concretas da China. Mencionou que as indústrias da economia inteligente no país já valem "pelo menos um trilhão de RMB" e que o país avança na regulação para garantir que a IA seja segura e estável. A China, segundo ele, já se move para prover "bens públicos internacionais" relacionados à IA, citando a promoção de uma resolução na Assembleia Geral da ONU sobre o tema e a publicação de um plano de ação para capacitação.

O movimento mais significativo foi a oficialização da World Artificial Intelligence Cooperation Organization (WAICO), sediada em Xangai, descrita como a transformação de uma "visão de um ano atrás em realidade". Para materializar a cooperação, Xi anunciou três compromissos: nos próximos cinco anos, a China fornecerá a países em desenvolvimento 5.000 vagas em programas de treinamento em IA; desenvolverá centros de cooperação em aplicação de IA com blocos como ASEAN, União Africana e BRICS; e permitirá que 30 países usem seu sistema de alerta meteorológico baseado em IA, o MAZU. Para contexto editorial, a criação de uma organização sediada em Xangai e os pacotes de ajuda direcionados ao Sul Global posicionam a China como uma alternativa ao eixo de governança de IA liderado pelos EUA e pela Europa, estabelecendo um campo de batalha regulatório e diplomático.

O pronunciamento de Xi Jinping é menos uma declaração sobre tecnologia e mais um manifesto geopolítico. Ao propor uma arquitetura de governança, criar uma instituição internacional em seu território e oferecer pacotes de cooperação concretos, a China sinaliza que sua ambição não é apenas competir, mas liderar a definição das regras do jogo. A questão que permanece é como as potências ocidentais responderão a uma tentativa de construir uma estrutura de poder paralela para a tecnologia que definirá o século.

Fonte · Brazil Valley | Business