Em discussão recente sobre dinâmicas corporativas, a decisão de Ryan Breslow, CEO da Bolt, de eliminar todo o seu departamento de Recursos Humanos tornou-se o centro de um debate sobre eficiência organizacional. A justificativa de Breslow foi direta: a equipe de RH estava criando problemas que não existiam, e essas fricções desapareceram assim que o departamento foi destituído. A estrutura tradicional foi substituída por uma equipe reduzida focada estritamente em "operações de pessoas", com o objetivo de otimizar processos sem gerar ruído. O movimento levanta um questionamento estrutural sobre o momento em que departamentos administrativos deixam de servir à visão da empresa e passam a operar para sua própria autopreservação, especialmente em ambientes remotos ou em modo de startup.

A armadilha corporativa em tempos de paz

A análise do caso Bolt revela uma dicotomia clara entre o que os debatedores classificam como "tempo de guerra" e "tempo de paz" nos negócios. Quando uma empresa não está em modo de sobrevivência ou hiperfoco, departamentos como o RH tendem a fabricar complexidades. O argumento central é que, na ausência de crises reais, profissionais da área criam problemas artificiais como uma forma de justificar sua própria utilidade e responder à insegurança estrutural do "eu sou valioso?".

Essa dinâmica frequentemente degenera para o que foi descrito como "triangulação", onde o RH atua de forma divisiva, jogando funcionários uns contra os outros sob o pretexto da confidencialidade. Em organizações menores, apontou-se que o departamento pode tentar obter legitimidade manipulando o fluxo de informações. A transição de uma cultura ágil para um pesadelo burocrático foi comparada à dinâmica de "bárbaros e burocratas", onde os portadores da bandeira inicial da startup são eventualmente sufocados por regras corporativas, chegando ao ponto de o RH ser hiperbolicamente comparado a uma "Gestapo" interna quando perde o foco em impulsionar a companhia.

Calibração aberta como alternativa à burocracia

Apesar da crítica severa ao modelo tradicional, a discussão reconhece que escalar uma operação sem uma estrutura de contratação e benefícios é inviável. O contraste foi ilustrado com o caso da Uber, que em seu período de expansão chegou a manter 500 pessoas dedicadas exclusivamente à aquisição de talentos — sendo 250 funcionários diretos e 250 contratados independentes —, atuando apenas no filtro e contratação de pessoal. O desafio, portanto, não é a eliminação da função de gestão de pessoas, mas a prevenção do ruído político que reduz a velocidade da operação.

Como antídoto à política de bastidores, foi apresentado um modelo de "calibração aberta". Em vez de conversas secretas, conflitos entre funcionários são expostos e resolvidos de forma transparente, baseando a avaliação de sucesso em cinco marcadores objetivos: esforço, atitude, liderança, inovação e resultados. Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que o ecossistema de tecnologia tem um histórico de fundadores que tentam achatar hierarquias administrativas para manter a agilidade dos primeiros dias, embora essas experiências frequentemente enfrentem limites práticos à medida que o quadro de funcionários atinge a escala de milhares de pessoas.

O desmantelamento do RH na Bolt serve como um estudo de caso sobre a velocidade operacional. Quando um departamento focado em pessoas se torna o principal gerador de fricção interna, ele se transforma no maior obstáculo de um CEO. A lição subjacente não é necessariamente a erradicação do RH em todas as empresas, mas a exigência de que qualquer estrutura administrativa atue como um viabilizador de crescimento, e não como um fim em si mesma. A burocracia que não acelera a contratação ou não melhora a eficiência, invariavelmente, custa o recurso mais valioso de uma startup: o tempo.

Fonte · Brazil Valley | Business