Em entrevista recente, o empreendedor brasileiro Ernesto Simões detalhou a estruturação da Bahia, sua incorporadora focada no mercado imobiliário de altíssimo padrão no Havaí. Após vender uma empresa de mídia exterior no Brasil para um fundo de investimento e enfrentar uma crise familiar de saúde em 2016, Simões mudou-se para o arquipélago com o objetivo de inovar o design residencial local. Hoje, a operação conta com cerca de 200 funcionários diretos e atua nas quatro ilhas havaianas — com forte presença em Kauai e expansão para a Big Island —, comercializando propriedades cujos valores de venda variam entre US$ 9,5 milhões e US$ 15 milhões, focadas na integração da estética litorânea brasileira ao rigor construtivo norte-americano.

A engenharia operacional no Pacífico

A tese central da incorporadora repousa na importação do design tropical brasileiro, liderado pelo arquiteto Caio Bandeira, para suprir uma carência de inovação estética nas residências havaianas. No entanto, Simões aponta que o maior desafio de execução no arquipélago é a escassez crônica de mão de obra qualificada. Para contornar esse limite, a empresa estabeleceu fábricas próprias em Java, na Indonésia, responsáveis por toda a produção de carpintaria, móveis e acabamentos de alto padrão.

Essa estratégia de pré-fabricação internacional permite à Bahia produzir casas de luxo em série, transformando o desenvolvimento imobiliário local em um veículo de investimento escalável. A montagem final é supervisionada por profissionais de confiança, como o brasileiro Paulo Maguluque, chefe de carpintaria da operação. Segundo o fundador, a empresa mantém atualmente sete residências em construção simultânea em Kauai e prepara o lançamento de um projeto de US$ 25 milhões no North Shore. Paralelamente, a incorporadora investe em habitação popular (affordable housing) para famílias havaianas, uma tática que facilitou a inserção da empresa na fechada comunidade local, operando em parceria com figuras nativas como o surfista Pant Sullivan.

Gestão de risco e infraestrutura de luxo

A expansão agressiva do portfólio ocorreu em meio a turbulências macroeconômicas. Simões relata que a alta recente dos juros nos Estados Unidos esfriou o mercado imobiliário, gerando estresse operacional em um momento de rápido crescimento, marcado pela pressão de investidores, bancos e cumprimento de prazos. Para sustentar a tomada de decisão sob risco, o empresário adotou o protocolo "Under Pressure", um sistema de treinamento mental e resiliência desenvolvido pelo especialista Rafael Crunfli, originalmente focado no surfe de ondas gigantes, mas aplicado diretamente à gestão corporativa.

O produto final da Bahia mira um comprador global que busca propriedades que transcendam o luxo tradicional. Simões argumenta que o Havaí oferece uma proposta de valor incomparável devido à sua posição geográfica estratégica — conectando a costa oeste dos Estados Unidos a destinos como o Japão e o Taiti — aliada a uma infraestrutura de primeiro mundo em saúde e salvamento. Essa combinação permite um estilo de vida de alto padrão sem a ostentação típica de outros mercados imobiliários costeiros.

Para a análise editorial da BrazilValley, o caso da Bahia ilustra que o sucesso no desenvolvimento imobiliário em mercados insulares restritos depende menos da construção civil tradicional e mais da orquestração de cadeias de suprimentos globais. Em vez de apenas exportar um produto, a operação arbitra ineficiências locais, conectando o design brasileiro e a manufatura asiática ao capital norte-americano. O resultado é um modelo que blinda margens através da verticalização transnacional em uma jurisdição de alta complexidade operacional.

Fonte · Brazil Valley | Business