Em entrevista recente, Max Junestrand, CEO da Legora, detalhou a trajetória e a infraestrutura tecnológica que permitiram à startup de inteligência artificial jurídica expandir sua operação para 40 mercados. Junestrand afirmou que a empresa cresceu de 40 para 400 funcionários em menos de 12 meses, impulsionada por uma retenção de receita líquida de 300% no último ano. A estratégia inicial da companhia, fundada após o acesso ao GPT-3.5 em 2023, baseou-se em evitar o fine-tuning de modelos fundacionais. Em vez de treinar redes próprias com capital limitado — após uma rodada anjo inicial de apenas € 50 mil —, a equipe priorizou a camada de aplicação, construindo integrações que permitissem o processamento de centenas de documentos simultâneos e conexão direta com a web.
A arquitetura do produto e a transição agêntica
A decisão de focar na aplicação provou-se estrutural. Junestrand explicou que a Legora inicialmente competia em casos de uso específicos, como a elaboração de textos no Microsoft Word e a extração de dados em grandes volumes de documentos. O primeiro grande cliente corporativo, a maior banca nórdica de advocacia, testou a ferramenta internamente após a startup superar requisitos rígidos de conformidade e privacidade de dados. Para contexto, a BrazilValley aponta que a estratégia de atuar como uma camada agnóstica sobre modelos de fronteira tornou-se um padrão defensável no mercado de software B2B, mitigando o risco de obsolescência rápida frente às atualizações das provedoras de infraestrutura de IA.
O atual roteiro de produto da Legora, no entanto, sinaliza uma mudança na interação do usuário. O CEO relatou uma transição de interfaces rasas de perguntas e respostas para o que descreve como um "sistema operacional agêntico". Segundo Junestrand, a plataforma agora permite que os modelos interajam com o contexto do escritório, fontes de conhecimento e outras ferramentas via MCP (Model Context Protocol). O resultado prático, observou o executivo, é uma mudança demográfica no uso: enquanto em 2023 os principais usuários eram advogados juniores buscando velocidade, a delegação de tarefas de ponta a ponta começou a atrair o uso direto por sócios seniores.
Escala operacional e cultura de engenharia
A velocidade de expansão geográfica exigiu adaptações operacionais. Junestrand destacou que a entrada em novos mercados, como a Índia — onde fecharam parceria com uma das principais bancas locais —, depende da integração prévia de jurisprudência e legislação da região ao produto. Para sustentar a operação distribuída em fusos horários da Costa Oeste americana à Austrália, a empresa adotou uma estrutura rigorosa de alocação de responsabilidades, baseada na premissa de "uma pessoa, um papel principal", evitando funções ambíguas que lentificam a execução em equipes em hipercrescimento.
Internamente, a Legora opera como um laboratório de automação. Junestrand revelou que poucas linhas de código são escritas manualmente na empresa hoje. O fluxo de desenvolvimento integra ferramentas de forma fluida: os bugs reportados no Slack são triados automaticamente no Linear, um rascunho de código é gerado pelo Cursor e um bot de revisão avalia o nível de segurança do código antes da aprovação humana. O objetivo atual da gestão é exportar essa fluência técnica das equipes de engenharia e produto para departamentos como marketing, finanças e recursos humanos, embutindo capacidades autônomas em cada função corporativa.
A trajetória da Legora ilustra a maturidade da segunda onda de aplicações de inteligência artificial generativa. A transição de copilotos reativos para agentes autônomos integrados aos sistemas de registro corporativos elimina o atrito de adoção em verticais tradicionais como o direito. Ao focar na orquestração de tarefas complexas em vez de apenas otimizar o tempo de redação, a empresa indica que o verdadeiro valor do software de IA não está em substituir o profissional, mas em reestruturar a economia do trabalho intelectual dentro das grandes organizações.
Fonte · Brazil Valley | Legaltech




