Em reportagem recente publicada pela Forbes, a trajetória da NotCo é apresentada não apenas como a de uma marca de substitutos vegetais, mas como a transição para uma fornecedora de infraestrutura tecnológica para a indústria de alimentos. O fundador e CEO, Matias Muchnick, estruturou a companhia em duas divisões: uma linha de consumo que opera como vitrine — com produtos como maionese e leite vegetal, crescendo 30% ao ano e próxima de atingir a lucratividade — e uma unidade de software corporativo focada em inteligência artificial. Esta última, segundo os dados reportados, já opera com lucro, ostenta margens brutas estimadas em 70% e gerou um faturamento anual na casa dos US$ 75 milhões após crescer 300% no último ano. A mudança de foco reflete a demanda de grandes conglomerados por previsibilidade na formulação de produtos.

A crise de insumos e o modelo de licenciamento

O modelo de negócios corporativo da NotCo ganhou tração em resposta direta à volatilidade da cadeia de suprimentos global. A reportagem destaca o caso da Ferrero, que gerencia mais de 30 mil receitas anuais. Após o salto nos preços do cacau em 2024, a gigante italiana recorreu à startup para identificar ingredientes alternativos que preservassem sabor e textura. Muchnick define o cenário atual como uma tempestade perfeita para as empresas de bens de consumo, onde a dependência de matérias-primas específicas dita as margens de lucro.

A estratégia de licenciamento já resultou no desenvolvimento de 30 novos produtos em quatro anos para a Kraft Heinz, através de uma joint venture que inclui formulações para marcas clássicas como Kraft Singles e salsichas Oscar Mayer. "Nos tornamos o 'Better Call Saul' para todos os problemas mais complexos que as maiores marcas da indústria alimentícia enfrentam", afirma o fundador. O motor dessa operação é o modelo de IA batizado de Giuseppe, que cruza uma década de dados proprietários, pesquisa científica e bases regulatórias para mapear combinações moleculares inesperadas.

Vantagem competitiva em mercados fechados

A formulação de alimentos é historicamente tratada como segredo industrial. Muchnick observa que o setor resiste ao compartilhamento de dados, mantendo sua vantagem competitiva oculta nos detalhes técnicos. Para contornar a limitação da intuição humana na análise de trilhões de combinações possíveis — um cenário que o CEO compara a enxadristas jogando vendados —, a NotCo construiu um fosso defensivo baseado em propriedade intelectual. A empresa detém 31 patentes, sendo 13 delas nos Estados Unidos especificamente para sua tecnologia de inteligência artificial. Segundo a Forbes, a startup atende atualmente sete dos vinte maiores conglomerados globais de alimentos.

Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que a transição de uma operação de consumo para o fornecimento de tecnologia corporativa é um movimento clássico de preservação de capital em mercados de alta densidade física. Enquanto a distribuição de bens de consumo exige pesados investimentos em logística e marketing, o licenciamento de software permite escalar margens com custo marginal substancialmente menor. Esse modelo ajuda a explicar a capacidade da NotCo de sustentar um valuation de US$ 1,5 bilhão, ancorado por mais de US$ 425 milhões levantados junto a investidores como L Catterton e Jeff Bezos.

O caso da NotCo ilustra uma mudança de paradigma na engenharia de alimentos. A companhia deixou de competir exclusivamente pelas gôndolas de supermercado para se posicionar no núcleo de pesquisa e desenvolvimento de seus maiores concorrentes em potencial. Se a projeção da consultoria Bright Green Partners citada na reportagem se confirmar — com o mercado de IA no processamento de alimentos saltando de US$ 15 bilhões em 2025 para US$ 140 bilhões em 2034 —, a principal entrega da NotCo não será o hambúrguer vegetal em si, mas a digitalização da propriedade intelectual da indústria alimentar.

Fonte · Brazil Valley | Business