Em conversa recente com o jornalista Pedro Andrade, o fotógrafo Bob Wolfenson articulou a distinção fundamental entre o ato técnico de capturar imagens e a profissão de fotógrafo em uma era de saturação visual. Utilizando uma analogia ouvida na formatura de sua filha, Wolfenson comparou a fotografia contemporânea ao idioma: saber escrever não transforma alguém automaticamente em um escritor. Para o retrato transcender o mero registro, argumenta, é necessário estabelecer um estilo, uma visão pessoal e um pacto com a audiência. Com quatro décadas de atuação, o profissional defende que a facilidade logística trazida pela revolução digital democratizou o acesso, mas simultaneamente elevou a barreira de sobressair em um mercado onde a concorrência e o volume de imagens cresceram exponencialmente.
A construção da linguagem e o peso do sujeito
A formação do olhar de Wolfenson passou por um reconhecimento inicial de mediocridade. Em 1982, já atuando profissionalmente no Brasil após iniciar aos 15 anos no estúdio da Editora Abril, ele decidiu recuar e buscar posições de assistente em Nova York. Após enviar cartas para nomes de peso da época, acabou trabalhando com o americano Bill King. Retornou ao mercado brasileiro mais seguro, inicialmente replicando o estilo do mentor, mas adaptando-o ao que descreveu como as "mazelas brasileiras" e a "expressão do subdesenvolvimento".
Apesar da longa bagagem, Wolfenson rejeita o rótulo de um profissional excessivamente técnico. Ele afirma ensinar seus assistentes primariamente pela observação do cotidiano no set, argumentando que seu diferencial reside em uma visão particular que não pode ser replicada por fórmulas prontas. Essa fluidez se reflete na sua própria definição de estilo: a capacidade de transitar com desenvoltura por diversas vertentes da fotografia, sem se prender a um único nicho.
Parte dessa dinâmica envolve reconhecer os limites da autoria diante da magnitude de quem está à frente da lente. Wolfenson admite que, em muitos casos, é o retratado quem carrega o peso histórico da imagem. Ele cita uma fotografia do então sindicalista Lula, feita em 1978 em São Bernardo do Campo, e um retrato de Caetano Veloso como exemplos de composições que ganharam dimensão não apenas pela execução, mas pela relevância intrínseca dos personagens retratados ao longo do tempo.
Limites estéticos e o mercado editorial
A trajetória do fotógrafo também ilustra as transformações do mercado editorial brasileiro. Durante seu período fotografando para a Playboy, Wolfenson lidou com as exigências de uma publicação que ele próprio classifica como objetificante. No entanto, buscou romper com a "cartilha" rígida da editora, tentando introduzir elementos poéticos e experimentais nos ensaios, citando o trabalho com a atriz Maitê Proença como um marco de distanciamento dos padrões estéticos estritos da revista.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a tentativa de injetar sofisticação visual em publicações de apelo massivo foi um movimento editorial frequente no final do século passado, buscando atrair anunciantes premium e elevar o valor percebido de produtos baseados em grandes tiragens físicas, embora o falante não tenha detalhado a economia do setor na conversa.
Questionado sobre escolhas técnicas e o estado atual da profissão, Wolfenson é pragmático. Ele prefere a cor ao preto e branco, e o digital ao analógico. O fotógrafo aponta que o maior defeito de iniciantes na área é "se dar muita importância". Mesmo com um portfólio consolidado, ele confessa ainda se sentir intimidado pelas figuras que admira e revela lacunas em seu arquivo: o desejo não realizado de fotografar Marisa Monte e a frustração de não possuir, em sua própria avaliação, uma imagem extraordinária da cantora Gal Costa.
A reflexão de Wolfenson desmistifica a figura do artista inabalável e reposiciona o fotógrafo como um observador vulnerável às dinâmicas de poder no estúdio. Ao admitir que a tecnologia resolveu a mecânica, mas não a narrativa, sua análise serve como um alerta para a economia criativa. Em um cenário onde a produção de imagens foi comoditizada e a distribuição é irrestrita, o diferencial competitivo retorna aos fundamentos analógicos da profissão: a capacidade de leitura humana, o repertório cultural e a clareza da intenção por trás do clique.
Fonte · Brazil Valley | Photography




