Uma série de decisões políticas desastrosas, iniciadas em meados do século XX, levou os Estados Unidos a um ponto de ruptura. A análise é de David Friedberg, que, em entrevista recente, argumenta que o país falhou em proteger a mobilidade econômica de sua população, criando uma crise de acessibilidade que hoje alimenta um crescente movimento socialista. Para Friedberg, o problema não é o capitalismo em si, mas as políticas que distorceram seus resultados. Ele aponta três frentes principais: uma política tributária que favorece o capital em detrimento do trabalho, a má gestão sistêmica da Previdência Social e gastos governamentais que inflaram os custos de educação, saúde e moradia a níveis insustentáveis. Com a metade mais pobre da população detendo apenas US$ 4 trilhões em patrimônio líquido, contra US$ 8 trilhões dos bilionários e US$ 170 trilhões da classe média, o sentimento de injustiça é, para ele, justificável, mas as soluções propostas pelo socialismo são um erro de diagnóstico.

O Pecado Original: Previdência e Impostos

Friedberg identifica dois erros fundamentais que criaram a base da desigualdade atual. O primeiro é a estrutura tributária. Ele considera "loucura" que os ganhos de capital sejam tributados a 15% ou 20%, enquanto o trabalho é taxado em até 40%. A política justa, segundo ele, seria o inverso: "O imposto sobre ganhos de capital deveria ser de 40%, não de 15%. O imposto de renda deveria ser muito menor". Essa inversão, argumenta, incentivou uma acumulação desproporcional de riqueza para quem já possui capital, enquanto penaliza quem depende de sua força de trabalho.

O segundo erro, talvez mais grave, foi a gestão da Previdência Social (Social Security). Desde uma mudança regulatória em 1982, os recursos do fundo foram investidos exclusivamente em títulos do Tesouro americano, com um rendimento médio de 3,5% ao ano. O resultado é um fundo com US$ 2,7 trilhões hoje, que segundo o Congressional Budget Office (CBO), estará insolvente em cinco anos. Friedberg faz uma comparação contundente: se esses mesmos recursos tivessem sido investidos no S&P 500, o fundo teria hoje um adicional de US$ 37 trilhões em ativos. Essa decisão, na prática, impediu que os 50% mais pobres da população participassem do crescimento das empresas americanas, deixando-os com uma promessa de aposentadoria que se assemelha a um "esquema Ponzi".

O Combustível no Fogo: Gastos e Propriedade

Sobre essa base de desigualdade estrutural, o governo adicionou políticas que, na tentativa de resolver problemas, apenas os agravaram. Friedberg aponta os gastos federais em educação, saúde e moradia como o "combustível no fogo". No setor de educação, o programa federal de empréstimos estudantis criou uma fonte de "dinheiro ilimitado", sem critérios de risco sobre o aluno, curso ou instituição. Isso permitiu que as universidades aumentassem os custos indiscriminadamente, resultando em um crescimento de 6 vezes no pessoal administrativo nos últimos 30 anos, com o número de alunos permanecendo estável. Hoje, 45 milhões de americanos formados na última década enfrentam dívidas impagáveis.

A mesma lógica se aplica à saúde, onde o governo como pagador único inflaciona os preços, e à moradia. A política de incentivar a posse da casa própria como principal ativo da classe média forçou o governo a manter os preços dos imóveis sempre em alta, para preservar o patrimônio dessa população. A consequência inevitável é que as novas gerações não conseguem mais comprar uma casa. Esses três pilares da vida americana se tornaram inacessíveis para a maioria, criando o desespero que políticos populistas exploram ao apontar um inimigo — os ricos — em vez de corrigir as políticas quebradas.

Para Friedberg, a solução não é o socialismo, que ele define como um sistema que "trava todos no trabalho para sempre", mas uma reforma pragmática do capitalismo americano. Suas propostas incluem zerar o imposto de renda para os 50% mais pobres, elevar os ganhos de capital para 40%, eliminar brechas fiscais e, crucialmente, transformar a Previdência Social em contas individuais no estilo 401(k), onde cada cidadão possuiria ações e participaria diretamente do sucesso econômico do país. O objetivo final, segundo ele, deveria ser uma métrica clara: converter 2% dos americanos de "trabalho para capital" a cada ano. Apenas essa mobilidade econômica, conclui, pode salvar o projeto americano de si mesmo.

Fonte · Brazil Valley | Podcast