A confirmação de que o Instagram atingiu 3 bilhões de usuários ativos mensais, feita por Mark Zuckerberg, marca o fim definitivo da premissa original do aplicativo. Em análise recente concedida à CNN, o colunista Fernando Miranda detalha como a Meta está redirecionando sua força para mensagens diretas, vídeos curtos (Reels) e uma nova aposta em fóruns de comunidade. O movimento, que relega as tradicionais postagens de fotos a um segundo plano, tem um objetivo duplo: maximizar a retenção por meio de conversas privadas e extrair dados humanos textuais para treinar sua inteligência artificial.

O fim da rede social e o domínio do grafo de interesse

A mudança de rota responde a uma alteração no comportamento de consumo. Miranda aponta que o Instagram deixou de ser uma rede social clássica para se tornar uma rede de interesse. O algoritmo agora prioriza conteúdos altamente compartilháveis de grandes criadores e celebridades — como Neymar, Cristiano Ronaldo e Virgínia — em detrimento das postagens de amigos reais. A lógica é utilitária: o principal sinal social para a Meta hoje é o compartilhamento.

É nesse ponto que a fotografia perde espaço. Segundo a análise, imagens estáticas não geram o mesmo volume de conversas que um vídeo ou um meme. A Meta percebeu que o comportamento de maior retenção em seu ecossistema é a troca de mensagens, espelhando o sucesso do WhatsApp. Ao forçar a entrega de Reels, a plataforma incentiva o usuário a enviar esse material via mensagem direta (DM), iniciando uma conversa que o mantém preso ao aplicativo.

Essa estratégia também explica como o Instagram superou o TikTok em número de usuários totais. Enquanto a rede chinesa dominou a Geração Z e os Millennials, o Instagram conseguiu capturar a demografia acima dos 40 anos, integrando esses públicos em uma única plataforma. Para contexto editorial, a transição do "social graph" (baseado em conexões pessoais) para o "interest graph" (baseado em recomendação algorítmica) foi a resposta estrutural das big techs à ascensão do formato de vídeos curtos, mudando o foco de quem o usuário conhece para o que prende sua atenção imediata.

A máquina de cópias e a busca por dados para IA

O segundo pilar da nova estratégia é a criação de uma plataforma focada em comunidades, visando concorrer diretamente com o Reddit — anúncio que chegou a provocar uma queda de 6% nas ações da rival. Miranda destaca que o Reddit possui mais de 1 bilhão de usuários e altíssima retenção, mas falha na monetização: gera cerca de US$ 1,5 bilhão em receita, contra os US$ 200 bilhões da Meta.

O interesse de Zuckerberg, no entanto, vai além da publicidade. O objetivo principal do novo fórum é capturar a opinião humana em formato de texto. Como as pessoas buscam cada vez mais a validação de outros usuários na internet, essas conversas estruturadas em comunidades são o insumo perfeito para alimentar a inteligência artificial generativa da Meta, conferindo uma vantagem competitiva contra ferramentas como o ChatGPT, da OpenAI, e o Claude, da Anthropic.

O movimento segue a cartilha histórica da empresa: copiar e escalar. Miranda relembra e-mails vazados em que Zuckerberg admite testar aplicativos concorrentes para replicá-los. Foi assim com o Snapchat (que gerou o Stories), com o Twitter (que deu origem ao Threads, hoje com mais de 250 milhões de usuários únicos) e, mais recentemente, com o BeReal. Com um ecossistema estimado em 4 bilhões de usuários totais entre suas plataformas, a Meta tenta engolir quase a totalidade dos 5 bilhões de usuários conectados à internet.

A reconfiguração do Instagram ilustra a agressividade do modelo de negócios da Meta. Ao agregar as dinâmicas de descoberta do TikTok, a intimidade do WhatsApp e, agora, os fóruns de discussão do Reddit, a empresa constrói um ecossistema fechado que dificulta o espaço para novos entrantes. Mais do que conectar pessoas, a arquitetura da plataforma foi redesenhada para ser uma esteira contínua de extração de dados comportamentais e conversacionais, garantindo a matéria-prima necessária para a corrida da inteligência artificial.

Fonte · Brazil Valley | Business