Em entrevista recente ao investidor Joe Lonsdale, Jacob Helberg, subsecretário de Estado dos EUA, delineou a estratégia do governo americano para manter a hegemonia na corrida da inteligência artificial. O pilar central dessa ofensiva atende pelo nome de Pax Silicon, uma coalizão de segurança econômica formada por 14 países. O objetivo primário é executar a maior reorganização da cadeia de suprimentos global em décadas, garantindo que os insumos necessários para a reindustrialização americana não dependam de potências adversárias. A diplomacia tradicional cede espaço a uma abordagem orientada a produtos tecnológicos, na qual Washington atua como plataforma para que empresas privadas construam infraestrutura, desde logística até o processamento de minerais críticos.

A arquitetura da aliança e o avanço no Indo-Pacífico

O primeiro movimento prático da Pax Silicon ocorre nas Filipinas, onde os governos fecharam um acordo para a construção de um parque industrial nativo de IA em um terreno de 4.000 acres próximo à Baía de Subic. Helberg explicou que a iniciativa visa garantir componentes e motores de nicho necessários para abastecer as fábricas em estados americanos como Ohio, Oklahoma e Virgínia. A lógica é criar zonas de segurança econômica que funcionem como âncoras na cadeia global de tecnologia.

A movimentação é uma resposta direta à infraestrutura construída por Pequim ao longo das últimas décadas. Helberg argumenta que, enquanto a iniciativa chinesa Belt and Road dependeu de estatais e gerou dívidas insustentáveis para os países parceiros, o modelo americano aposta em joint ventures e empresas privadas. A avaliação de Washington é que a China, apesar de possuir um ecossistema de manufatura formidável, enfrenta um cenário macroeconômico de desaceleração, com dados falsificados e restrições à propriedade privada que afugentam o capital de sua própria elite.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição de alianças militares tradicionais para blocos de segurança em cadeias de suprimentos reflete uma mudança estrutural na geopolítica, onde o controle de gargalos físicos de hardware se tornou tão crítico quanto o poderio bélico ao longo do século XX.

O declínio europeu e o fator produtividade

Além do embate direto com a China, a análise de Helberg expõe uma fratura estrutural com aliados históricos. A ascensão da IA está provocando uma divergência aguda de crescimento global. Segundo o subsecretário, os países que integram a Pax Silicon apresentam um crescimento anual na casa de 4%, impulsionados por ganhos de produtividade tecnológica. Em contrapartida, as nações do G7 — classificadas por ele como um artefato da Guerra Fria — patinam em um crescimento próximo a 1%.

A Europa é citada como o caso mais crítico de estagnação. Helberg relata que o continente não apresenta crescimento significativo há uma geração, penalizado por excesso de regulação e aversão ao risco cultural. Citando o relatório elaborado por Mario Draghi, o subsecretário defende que a receita para a recuperação europeia exige desregulamentação, fronteiras seguras, impostos menores e redução no custo de energia. No entanto, a burocracia supranacional de Bruxelas continua a priorizar regulações complexas em detrimento da inovação.

O impacto da IA no mercado de trabalho americano, por outro lado, é tratado com otimismo. Refutando teses de desemprego em massa, Helberg traça um paralelo com a revolução dos computadores pessoais, que eliminou 3,5 milhões de vagas, mas criou outras 19 milhões. Com a produtividade americana crescendo a 5% e o desemprego abaixo dessa mesma marca, a visão do Departamento de Estado é de expansão econômica profunda.

A articulação da Pax Silicon sinaliza que a política externa de Washington está definitivamente atrelada à política industrial de tecnologia. A tentativa de replicar o ecossistema do Vale do Silício em zonas econômicas aliadas não é apenas uma manobra diplomática, mas uma necessidade material para sustentar os investimentos estruturais em inteligência artificial nos EUA. O que permanece em aberto é a velocidade com que essa infraestrutura física poderá ser erguida frente à capacidade instalada da manufatura chinesa, e se aliados europeus conseguirão flexibilizar suas regulações a tempo de evitar a irrelevância tecnológica no novo mapa de poder global.

Fonte · Brazil Valley | Society