A decisão mais importante na trajetória de David Feffer à frente da Suzano foi um ato de autodestruição profissional. Em entrevista publicada em 16 de julho de 2026, o herdeiro da terceira geração descreve como, ao assumir o cargo de CEO em 2001, sua primeira medida foi planejar a própria saída e a de todos os familiares dos postos executivos. Feffer, que afirma ter lutado a vida inteira para chegar àquela posição, chama o movimento de seu “harakiri profissional”. A decisão, que culminou em sua passagem para a presidência do conselho em 2003, foi contraintuitiva, mas deliberada: transformar uma empresa familiar em uma companhia de controle familiar com gestão profissional meritocrática. Segundo Feffer, este foi o movimento fundacional que permitiu à Suzano escalar e se tornar a maior produtora de celulose do mundo, pois, para ele, a perpetuidade da empresa exigia um sistema de governança que transcendesse o indivíduo.

Da Sobrevivência à Inovação

A história da Suzano é marcada por momentos de risco calculado e inovação disruptiva. Feffer narra a jornada de seu avô, Leon Feffer, que chegou da Ucrânia em 1920 e fundou a empresa em 1924. Um episódio emblemático foi a compra de um depósito de papel queimado durante a crise de 1929. Enquanto outros viam prejuízo, seu avô percebeu que apenas as bordas das pilhas de papel, presas com arame, haviam sido danificadas. Ele cortou as bordas e vendeu o papel restante como novo, obtendo o capital de giro que precisava. Anos depois, ao construir sua primeira fábrica, foi pressionado pelo Conde Matarazzo, o maior empresário da época, a vender o negócio. A resposta foi dobrar a aposta e buscar mais um empréstimo para concluir o projeto.

A segunda geração, com Max Feffer, pai de David, introduziu a inovação tecnológica como pilar. Diante da dependência da celulose importada, Max, que estudava música na Juilliard, foi chamado de volta ao Brasil. Ele liderou uma pesquisa que resultou no desenvolvimento de um processo para fabricar celulose 100% a partir do eucalipto, uma madeira abundante no país. Essa inovação não apenas garantiu a autossuficiência da empresa, como estabeleceu uma vantagem competitiva duradoura, integrando a companhia da madeira ao papel e pavimentando o caminho para a liderança global.

A Arquitetura da Perpetuidade

O “harakiri profissional” de David Feffer não foi um fim, mas a criação de uma nova arquitetura de poder. Ao se afastar da operação e instalar uma gestão profissional, ele estabeleceu uma estrutura de governança capaz de executar movimentos estratégicos de alta complexidade. O caso mais notável foi a fusão com a Fibria. Feffer insiste que, apesar da Suzano ter adquirido a concorrente, o processo foi tratado como uma “fusão de iguais”. Em vez de impor sua cultura, a decisão foi criar uma terceira empresa, combinando os melhores ativos, processos e, principalmente, pessoas de ambas as companhias. Essa abordagem, segundo ele, evitou o fracasso comum em integrações de concorrentes e gerou uma nova organização mais potente.

Essa mesma estrutura permitiu a expansão internacional recente, através de uma joint venture com a Kimberly-Clark. Feffer demonstra humildade ao reconhecer que a Suzano “não sabe fazer isso”, referindo-se à operação de consumo em 70 mercados. A solução foi manter o parceiro no negócio, mesmo com a opção de compra total, para somar expertises. A função do conselho, sob sua presidência, passou a ser de guardião da estratégia de longo prazo, focando em três perguntas: para onde vamos (estratégia), com quem vamos (pessoas) e como vamos (sustentabilidade). O trabalho do CEO e da diretoria é tocar a operação, com autonomia e alinhamento de interesses.

O legado que Feffer busca construir é o de uma organização que prospera pela força de seu sistema, não pela genialidade de um indivíduo. A transição de uma empresa familiar para uma gestão profissional meritocrática foi o alicerce para que a Suzano pudesse crescer mais rápido que a própria família. Sua filosofia se resume em uma de suas frases de efeito: “O sucesso é o maior inimigo da nossa longevidade, porque ele pode causar falta de humildade”. Para a Suzano, a humildade de desconstruir o poder foi a chave para construir um império.

Fonte · Brazil Valley | Leadership