Em uma ilha na costa leste do Canadá, uma residência redefine a relação entre forma e vazio. O estúdio RHAD Architects, baseado em Dartmouth, concluiu a Two Bay House, uma casa à beira de um lago em Cape Breton, Nova Scotia, cujo design parte de uma premissa radical: a forma emerge da subtração, e não da adição.
Segundo reportagem da revista de design e arquitetura Dezeen, o projeto não se apoia na complexidade formal, mas em uma série de recortes e remoções de massa. O resultado é um edifício de presença monolítica, mas cuja experiência se dá através dos vazios — pátios, terraços e pés-direitos duplos que medeiam a relação entre o abrigo e a paisagem circundante.
A Escultura do Vazio
A filosofia do escritório, liderado pela fundadora Rayleen Hill, é explícita: “A arquitetura emerge não pela adição de elementos, mas por uma série de atos deliberados de subtração e entalhe”. Nessa lógica, os espaços vazios se tornam tão significativos quanto as formas sólidas que restam. Essa abordagem é materializada no exterior da casa, revestido com madeira carbonizada pela técnica japonesa de shou sugi ban (ou yakisugi). O tratamento confere ao edifício uma aparência sóbria e unificada.
Onde os volumes são “esculpidos”, a madeira carbonizada dá lugar à madeira de cicuta em seu tom natural. Este contraste torna cada subtração legível, revelando os pontos onde a arquitetura se abre para a luz, a paisagem e a ocupação humana. É um diálogo visual entre o exterior protegido e o interior revelado.
O Jogo de Luz e Vento
Em planta, a casa consiste em duas barras paralelas de comprimentos distintos. A diferença de tamanho cria um pátio protegido dos ventos predominantes, enquanto captura a luz do sol da tarde. A organização interna separa as áreas comuns das privadas: um volume abriga os quartos, enquanto o outro contém cozinha, sala de jantar e estar.
No interior, um grande vazio central com uma ponte de vidro permite que a luz e a atividade fluam livremente entre os andares. Claraboias e grandes painéis de vidro na fachada voltada para a água estendem os espaços internos para o exterior, projetando a arquitetura na paisagem sem perder a sensação de acolhimento. A casa se torna um instrumento que enquadra a natureza e modula a luz.
O projeto demonstra como a remoção cuidadosa de massa pode gerar uma riqueza de experiências espaciais — momentos de compressão e liberação, de escuridão e luz. O caráter da residência é definido tanto pelos espaços que foram retirados quanto pelos que permaneceram, uma lição sobre a potência do vazio na arquitetura.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





