A história do cinema é repleta de objetos que transcenderam sua função original para se tornarem símbolos ou mesmo obras de arte. Em "Faust" (1926), do visionário F. W. Murnau, uma Bíblia não era apenas um adereço de cena, mas um receptáculo de memórias e um reflexo da própria criação cinematográfica. O filme, ambientado em uma Alemanha do século XVI assolada pela peste, vê o alquimista Faust recorrer à ciência e à oração em vão, culminando em um ato de desespero: jogar seus livros, incluindo a imponente Bíblia, no fogo.
O que torna esta Bíblia extraordinária é que, para além de seu papel na narrativa, ela serviu como um scrapbook para a equipe de Murnau. Ali, foram reunidas fotos de produção, anotações e ilustrações, um registro tangível do processo criativo. Quando Murnau partiu para Hollywood em 1927 para dirigir "Aurora" (Sunrise: A Song of Two Humans), ele deixou a Bíblia para trás em seu apartamento em Berlim, com a intenção de retornar. No entanto, o destino interveio tragicamente. Em março de 1931, Murnau faleceu em um acidente de carro aos 42 anos, impedindo seu retorno e deixando seus pertences dispersos.
A Sobrevivência de um Objeto Cinematográfico
Os pertences de Murnau foram guardados em porões em Berlim, locais vulneráveis a inundações e, posteriormente, aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. "A Bíblia sobreviveu milagrosamente", escreve Pamela Hutchinson no The Guardian, detalhando sua jornada através das mãos de um restaurateur e um curador antes de ser adquirida pela Cinémathèque française em 2017. A descrição de Hutchinson sobre a Bíblia restaurada é vívida: "é apropriadamente grandiosa em escala, um scrapbook incomumente majestoso". O trabalho de Laurent Mannoni e sua equipe em restaurar o objeto, suavizando os danos causados pela água e reparando as marcas de uso, transformou um adereço de cinema centenário em uma relíquia.
Da Narrativa à Arte, e de Volta
A "The Faust Bible: The Making of F. W. Murnau's Masterpiece" é mais do que uma simples publicação sobre cinema; é uma celebração da intersecção entre narrativa visual e arte material. A edição fac-símile, parte da série Projections da MUBI Editions, não apenas apresenta o livro restaurado, mas também oferece um vídeo introdutório de nove minutos e uma galeria de pôsteres do filme. Este objeto, que começou como um elemento cênico para evocar desespero e busca intelectual, evoluiu para um artefato histórico que documenta a gênese de uma obra-prima. A própria ideia de um "scrapbook de produção" encapsula a natureza colaborativa e multifacetada da realização cinematográfica, onde cada elemento, por menor que seja, contribui para a tapeçaria final.
O Legado de Murnau e a Força da Imagem
A história da Bíblia de "Faust" é um lembrete da efemeridade da vida e da permanência da arte. Murnau, um diretor cujos filmes como "Nosferatu" (1922) e "Aurora" são marcos na história do cinema, teve sua vida interrompida precocemente. No entanto, seu trabalho e a forma como ele concebia a imagem continuam a inspirar e a ser estudados. A restauração e exibição deste objeto específico sublinha a importância dos detalhes na construção de um filme e como esses detalhes podem, com o tempo, adquirir vida própria. A atenção aos detalhes, desde a iluminação expressionista até os adereços cuidadosamente escolhidos, é o que eleva "Faust" de um mero filme a uma experiência visual e temática profunda.
Reflexões Sobre o Processo Criativo
Eventos como as exibições de "Faust" com acompanhamento musical ao vivo em Munique e Los Angeles demonstram o poder duradouro da obra de Murnau. A Bíblia, em sua nova forma como publicação e peça de museu, convida a uma reflexão mais profunda sobre o processo criativo. Como um objeto, que outrora serviu para impulsionar a narrativa em um filme mudo, pode agora contar sua própria história sobre a criação desse filme? A resposta reside na própria natureza da arte: ela é capaz de transcender seus limites originais, dialogando com novas audiências e gerando novas interpretações ao longo do tempo. A Bíblia de "Faust" é, em última análise, um testemunho da resiliência da arte e da memória.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





