Quando perguntada sobre o que significava ser condecorada como Dama do Império Britânico, Diana Rigg respondeu com a ironia que lhe era característica: “Acho que significa que não devo mais dizer ‘fuck’”. A anedota, uma de muitas, captura a essência de uma atriz que dominou papéis de imensa gravidade nos palcos e telas, mas que na vida privada se recusava a levar a si mesma — ou seu ofício — a sério.

Essa aversão à solenidade era tão profunda que Rigg consistentemente declinou ofertas para que sua biografia fosse escrita. Ela temia parecer “séria demais”. Para o público, ela era a Medeia trágica, a astuta Olenna Tyrell de Game of Thrones ou a destemida Emma Peel de Os Vingadores — mulheres ferozes, complexas e inesquecíveis. Nos bastidores, porém, habitava uma figura autodepreciativa e com os pés no chão, que via a pompa com desconfiança.

Coube à sua filha, a também atriz Rachael Stirling, a tarefa de documentar essa vida. O resultado é o livro All About My Mother, descrito em resenha do The Guardian como um “elogio divertido, íntimo e lindamente escrito”. Longe de ser uma biografia convencional, a obra é um mosaico construído a partir das lembranças de Stirling, de entrevistas, escritos da própria Rigg e recortes de imprensa guardados por sua avó. “Isto é o que eu sei, o que ela disse, o que aprendi”, afirma Stirling na obra, assumindo a natureza pessoal do projeto.

O livro se torna, assim, menos um registro definitivo e mais uma carta de amor. Um retrato que Diana Rigg talvez nunca tivesse autorizado em vida, mas que, por ser tecido com afeto e honestidade, talvez seja o único tipo de biografia que ela de fato merecia. Resta a imagem de uma Dama que, ao recusar o pedestal, apenas engrandeceu seu próprio mito.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 3 Quarks Daily