Donald Trump declarou guerra ao voto por correspondência. O ex-presidente já o descreveu como “perigoso”, “corrupto” e uma “fraude”. Agora, uma nova ofensiva, mais sutil e talvez mais danosa, está em curso, não por meio de decretos explícitos, mas pela instrumentalização de uma das mais antigas instituições americanas: o serviço postal, o U.S. Postal Service (USPS).

Segundo uma reportagem da revista The Atlantic, uma ordem executiva de março direcionou o USPS a criar um plano que, na prática, pode paralisar o envio de cédulas pelo correio. A Suprema Corte americana avalia se permite que a medida avance a tempo das eleições de meio de mandato. O risco, segundo o especialista em direito eleitoral Rick Hasen, é de um “desenfranchisement em massa”. A tese aqui não é sobre ganhar ou perder a eleição, mas sobre tornar o processo tão caótico que a confiança no resultado seja a principal vítima.

O labirinto regulatório

Até hoje, o USPS simplesmente postava todas as cédulas fornecidas pelas autoridades eleitorais estaduais e locais. A nova regra impõe uma série de obstáculos. Jurisdições eleitorais precisarão de aprovação federal para o design dos envelopes, que deverão conter códigos de barras específicos. Além disso, os estados terão que subir uma lista completa de todos os eleitores que receberão a cédula em um novo “portal federal de cédulas”, que, segundo a própria agência admitiu em juízo, ainda não estava online no início de setembro.

A complexidade parece desenhada para o fracasso. Um delator alertou que o USPS planeja operar o sistema com uma “taxa de falha zero”. As cédulas seriam escaneadas em grandes lotes e, se um único envelope não corresponder à lista de eleitores no portal, o lote inteiro será retido. Para estados que já imprimiram milhões de envelopes, como o Havaí, ou cujas leis locais proíbem as alterações exigidas, como Rhode Island, a regra cria um impasse logístico e financeiro a poucas semanas da votação. Em Oregon, onde todas as eleições são conduzidas por correio, autoridades temem que seus sistemas de informática “envelhecidos” não consigam subir os dados de 3 milhões de eleitores a tempo.

A vitória pelo caos

O paradoxo da estratégia é que ela pode prejudicar a própria base republicana. “Se isso de fato acontecer, o fardo recairá mais sobre nossos eleitores mais vulneráveis — os idosos, os deficientes, eleitores rurais, eleitores em reservas indígenas, eleitores nas forças armadas”, afirmou Hasen ao The Atlantic. Muitos desses grupos, como idosos e eleitores rurais, tendem a votar no Partido Republicano. Impedidos de receber suas cédulas, o resultado mais provável é que simplesmente fiquem em casa, enquanto democratas, mais mobilizados pela oposição a Trump, podem encontrar outras formas de votar presencialmente.

A lógica, portanto, parece ser outra. Se o objetivo não é uma vitória partidária direta, a confusão generalizada pode ser um fim em si mesmo. Um grupo de autoridades eleitorais, incluindo vários secretários de estado republicanos, alertou a Suprema Corte em um documento que “uma eleição caótica corrói a confiança no resultado”. Para um ator político cuja carreira foi construída sobre a desconfiança nas instituições, a erosão da fé no processo democrático pode ser, por si só, a verdadeira vitória.

Quando a infraestrutura de uma eleição é convertida em ferramenta de suspeição, o resultado se torna secundário. O objetivo deixa de ser contar os votos e passa a ser lançar dúvida sobre cada um deles. Nesse cenário, o caos não é um efeito colateral indesejado; é o produto final.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas