Uma nova geração de cadeiras de rodas motorizadas, equipadas com braços robóticos e inteligência artificial, está sendo desenvolvida pela startup ATDev. Parte de um consórcio financiado pela ARPA-H, a agência de projetos de pesquisa avançada para saúde do governo americano, a empresa busca transformar um equipamento que, segundo seus fundadores, pouco evoluiu em décadas.
O projeto, reportado pelo The Robot Report, visa criar uma plataforma que não apenas transporta, mas assiste ativamente o usuário em tarefas diárias como alcançar objetos, abrir portas e até mesmo auxiliar na alimentação. A tese da ATDev é que a cadeira de rodas pode evoluir de um dispositivo de mobilidade para um copiloto para a vida diária, devolvendo um grau de autonomia que a tecnologia atual não oferece. O impulso vem da frustração pessoal de seu fundador, Owen Kent, usuário de cadeira de rodas há 30 anos. “Todo celular que você já teve tem mais poder de computação do que qualquer cadeira de rodas já teve”, afirma.
Uma nova arquitetura, do zero
O ponto de partida da ATDev é uma crítica contundente ao status quo: a maioria das cadeiras de rodas depende de eletrônica e software datados, uma barreira para a inovação. Em vez de apenas adicionar novos componentes, a empresa, em parceria com a Universidade de Pittsburgh no programa RAMMP (Robotic Assistive Mobility and Manipulation Platform), está reconstruindo a arquitetura do equipamento a partir do zero.
O objetivo é transformar o que o CEO Todd Roberts descreve como uma “base robótica móvel extremamente estável com um humano nela” em uma plataforma inteligente e aberta. Isso significa integrar um braço robótico para manipulação e habilitar funções de teleoperação, permitindo que o usuário comande a cadeira à distância — por exemplo, para buscar uma bebida na cozinha enquanto ainda está na cama. A aposta em uma arquitetura de software aberta visa atrair mais colaboradores e acelerar o ciclo de desenvolvimento, rompendo com o modelo fechado que domina o setor de dispositivos médicos.
O espectro da autonomia
Diferente de um carro autônomo, que busca eliminar a intervenção humana, a cadeira da ATDev opera sob o conceito de “autonomia compartilhada”. A ideia, segundo Kent, é oferecer um “espectro de autonomia”, no qual o usuário decide em tempo real o nível de assistência desejado, variando do controle motor individual a pequenos ajustes de navegação autônoma. A pessoa permanece no comando; a máquina atua como uma assistente precisa. “Não há muito desejo de sentar na cadeira, fechar os olhos e ir do ponto A ao B”, explica Roberts.
Para viabilizar essa visão, a segurança é o desafio central, especialmente em interações delicadas, como levar um garfo ao rosto de uma pessoa com paralisia. A ATDev está colaborando com a Meta para aplicar modelos de IA que ajudem a cadeira a interpretar e navegar em ambientes domésticos complexos. A empresa também planeja um sistema de “aprendizagem federada”, permitindo que as cadeiras aprendam umas com as outras e que os usuários compartilhem novas habilidades por meio de uma espécie de loja de aplicativos.
O caminho regulatório para um “dispositivo de mobilidade pessoal robótico” ainda não existe, mas a participação no programa federal ARPA-H facilita o diálogo com agências como a FDA. A ATDev estima ter um produto aprovado e coberto por seguros no mercado em até cinco anos. O diferencial, insistem os fundadores, é um processo de design “liderado pelo usuário”, não apenas centrado nele, garantindo que a voz de quem mais precisa da inovação seja a principal guia do projeto.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Robot Report





