A cúpula do Partido dos Trabalhadores se reuniu em Brasília nesta quinta-feira para um freio de arrumação na campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O encontro, convocado em caráter de urgência, funciona como uma caixa de ressonância para o crescente incômodo com os rumos da estratégia eleitoral, pressionada por uma crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF) e por pesquisas que indicam um cenário de empate com Flávio Bolsonaro (PL).

O movimento expõe uma tensão que vinha sendo represada. A avaliação interna, segundo reportagem do InfoMoney, é que a campanha perdeu o controle da pauta nacional e precisa recalibrar a rota para o que se desenha como uma disputa acirrada. A reunião, portanto, é menos sobre planejamento e mais sobre a gestão da crise — tanto a externa, que consome o debate público, quanto a interna, que questiona a liderança da própria campanha.

A centralização em xeque

No centro das críticas está Edinho Silva, presidente do PT e coordenador da campanha. Lideranças do partido e de legendas aliadas se queixam de uma gestão centralizadora e com pouco diálogo. A percepção, segundo relatos de bastidores, é que Silva tem se dedicado mais à sua própria candidatura a deputado federal por São Paulo e mantido as decisões estratégicas restritas a seu círculo de confiança, em linha direta com Lula.

Essa falta de articulação teria deixado outras correntes do PT e partidos da base aliada, como PSB e PDT, à margem do processo decisório. Embora reconheçam o papel de Edinho em neutralizar o apoio do Centrão a Bolsonaro, os críticos agora cobram uma abertura para entender as demandas das bases e ajustar o discurso. A convocação da reunião, para alguns, soa como uma tentativa tardia de dividir responsabilidades agora que a pressão aumentou.

O vácuo na agenda

A principal preocupação é que a escalada da crise no STF criou um vácuo na agenda propositiva de Lula. O tema monopolizou o debate, ofuscando pautas que o governo considera trunfos eleitorais, como a proposta de emenda à Constituição que visa o fim da jornada de trabalho 6x1. O próprio presidente tem confidenciado a interlocutores o temor de que o desgaste do Judiciário contamine o ambiente eleitoral e prejudique sua candidatura.

A resposta ensaiada na reunião aponta para uma mudança de tom. Figuras como o ministro José Guimarães e a senadora Teresa Leitão defenderam abertamente uma postura de “radicalismo” e “enfrentamento”. A ordem é partir para a comparação direta entre os governos e expor o que consideram ser o “risco” de um retorno do bolsonarismo ao poder. A estratégia seria trocar a agenda econômica, hoje ofuscada, por uma batalha de narrativas políticas mais diretas.

O encontro desta quinta-feira não é um ponto final, mas o reconhecimento formal de que a estratégia adotada até aqui se esgotou. A questão que paira sobre a campanha de Lula é se a correção de curso será suficiente para retomar a iniciativa política e mobilizar as bases a tempo, ou se a reação já chega com o cronômetro em contagem regressiva.

Source · InfoMoney