Um dos nomes mais emblemáticos do varejo brasileiro recorreu à proteção da Justiça. A Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial com dívidas declaradas de R$ 17,3 bilhões e, em paralelo, negocia um financiamento na modalidade DIP (debtor-in-possession) de R$ 1 bilhão para garantir a liquidez nos próximos meses. A informação foi reportada inicialmente pelo Brazil Journal.

O movimento marca um ponto de inflexão para a companhia, que já havia passado por uma recuperação extrajudicial há dois anos e concluído uma reestruturação de dívida recente. A incapacidade de levantar capital novo, seja via ações ou crédito, em um mercado mais restritivo, forçou a empresa a uma medida drástica. A tese agora é clara: a sobrevivência exige um encolhimento radical da operação, abandonando a busca por escala a qualquer custo.

O plano de voo na turbulência

O financiamento DIP, que concede prioridade de pagamento ao credor, funciona como uma ponte financeira. A expectativa é que a linha de R$ 1 bilhão, negociada com os principais credores financeiros como Bradesco e Banco do Brasil, sustente o caixa até que outras fontes de liquidez sejam destravadas. O plano de recuperação se apoia em dois outros pilares: a liberação de depósitos judiciais e a renegociação de passivos tributários.

A companhia possui cerca de R$ 2 bilhões em depósitos judiciais e pretende solicitar à Justiça a liberação de aproximadamente R$ 1 bilhão desse montante. Na frente fiscal, a Casas Bahia, que paga entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões anuais em impostos, buscará mecanismos de transação tributária para alongar prazos. Juntas, essas medidas poderiam liberar ou adiar cerca de R$ 2,5 bilhões em saídas de caixa ao longo do próximo ano, mas o efeito não é imediato.

Encolher para (tentar) crescer

O ajuste financeiro vem acompanhado de uma reestruturação operacional severa. Na última semana, a empresa fechou 298 lojas consideradas deficitárias e demitiu mais de 3 mil funcionários, gerando uma economia anual estimada em R$ 400 milhões apenas com a folha de pagamento. Somando cortes em tecnologia, aluguéis e outras despesas, a redução estrutural pode alcançar R$ 2 bilhões anuais.

Essa estratégia de encolhimento reflete uma mudança de filosofia: a prioridade passa a ser margem, caixa e retorno sobre o capital, em detrimento do volume de vendas e da participação de mercado. Até a relação com fornecedores será alterada: dívidas antigas serão renegociadas no âmbito da RJ, enquanto novas compras de estoque serão pagas à vista, uma tentativa de restaurar a confiança e garantir o abastecimento das lojas.

A recuperação judicial não é o plano original, mas a consequência de alternativas que não se materializaram. O desafio, agora, é executar um plano complexo sob o escrutínio de credores e da Justiça, enquanto tenta manter a operação relevante para o consumidor. A meta de voltar a gerar caixa positivo em 2027 é ambiciosa e definirá o futuro de um dos maiores nomes do varejo nacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech