O mercado imobiliário espanhol atingiu um paradoxo: os preços de venda e aluguel estão em máximas históricas, mas o volume de transações e a concessão de hipotecas começam a recuar. O diagnóstico é que a capacidade de pagamento da população chegou ao seu limite, criando um ponto de inflexão para o setor.

A análise vem de María Matos, diretora de estudos e porta-voz da Fotocasa, uma das principais plataformas imobiliárias do país, em entrevista ao portal Xataka. A tese central é que, embora o ritmo de alta deva desacelerar, uma queda nos preços é improvável devido a um profundo desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda.

O desequilíbrio estrutural

A principal força que sustenta os preços elevados na Espanha é um déficit crônico de moradias. Enquanto o Banco da Espanha estima a falta de 750 mil casas entre 2021 e 2025, os dados da Fotocasa são ainda mais alarmantes, apontando para uma necessidade de 1,8 milhão de imóveis para equilibrar o mercado.

Essa lacuna é alimentada por um descompasso fundamental: a cada ano, o país cria muito mais lares do que constrói unidades habitacionais. Em 2025, por exemplo, foram criados 240 mil novos lares, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), mas apenas 95 mil novas residências foram concluídas. Esse desequilíbrio impede qualquer correção significativa nos preços.

Os entraves da oferta

Aumentar a oferta, no entanto, não é uma tarefa simples. O setor de construção enfrenta uma tempestade perfeita de obstáculos. Segundo Matos, a lista inclui a escassez de terrenos prontos para construção, a burocracia excessiva para a obtenção de licenças — que em algumas cidades pode demorar mais que a própria obra — e um aumento de 25% nos custos de construção.

Como se não bastasse, um novo gargalo se impõe: a falta de mão de obra. A Espanha precisaria incorporar cerca de 700 mil novos trabalhadores no setor para conseguir dar vazão à demanda por novas construções. Sem resolver esses entraves, a produção anual de cerca de 100 mil novas moradias permanece insuficiente.

O cenário espanhol serve de alerta para outros mercados urbanos sob pressão. O setor se encontra espremido entre o teto da capacidade de pagamento das famílias e o piso de uma oferta que não consegue decolar. A moderação no ritmo de alta dos preços parece ser menos uma vitória para os inquilinos e mais um sintoma de exaustão do mercado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka