Se o voto no Brasil deixasse de ser uma obrigação, 56% dos eleitores ainda assim compareceriam às urnas. É o que aponta uma nova pesquisa Datafolha, que revela um país dividido: do outro lado, 43% dos cidadãos afirmam que deixariam de votar.

O dado, à primeira vista, pode sugerir um elevado senso de dever cívico. A análise dos recortes demográficos, contudo, pinta um quadro mais complexo e preocupante. O perfil do eleitor que votaria por vontade própria não é um espelho da população, mas sim de seus estratos mais privilegiados, levantando um debate crucial sobre a função do voto compulsório como mecanismo de inclusão.

Um retrato da desigualdade cívica

Os números da pesquisa, reportados pelo Money Times, são eloquentes. A disposição para votar voluntariamente cresce junto com a renda e a escolaridade. Entre os eleitores com ensino superior, 69% manteriam o hábito de votar, contra 49% daqueles com menor instrução. A diferença é ainda mais acentuada no recorte de renda: 75% dos que ganham acima de cinco salários mínimos iriam às urnas, em comparação com 49% no grupo que recebe até dois salários mínimos.

Essa fotografia revela uma verdade inconveniente: o engajamento cívico, quando facultativo, parece correlacionado ao capital social e econômico. A leitura aqui é que o voto obrigatório, apesar de suas falhas e da discussão perene sobre sua validade, força o sistema político a prestar contas a uma base eleitoral mais ampla e diversa. Sem ele, o risco seria o de uma democracia ainda mais capturada pelos interesses de uma minoria mais velha, mais rica e mais instruída.

Curiosamente, a polarização política parece ter elevado o interesse pelo voto. A disposição atual (56%) é significativamente maior que a registrada em 2015 (41%), em meio a um cenário de crise econômica e desilusão política. O debate sobre o fim da obrigatoriedade do voto é legítimo, mas os dados do Datafolha oferecem um vislumbre sóbrio de suas possíveis consequências: uma cidadania exercida por poucos, aprofundando o abismo da representatividade.

Source · Money Times