Uma análise de dados cobrindo 75 anos da produção de energia nos Estados Unidos revela uma reconfiguração tectônica, mas não exatamente a que domina o noticiário. Entre 1950 e 2025, o gás natural tomou o lugar do carvão como a principal fonte energética do país, numa troca impulsionada muito mais por uma revolução tecnológica em combustíveis fósseis do que pela ascensão das fontes renováveis.
Os números, compilados pelo Visual Capitalist com base em dados da Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA), mostram que a produção total de energia americana mais do que triplicou no período. A tese central, no entanto, está na recomposição dessa matriz: o que ocorreu foi uma substituição de um fóssil por outro, com implicações econômicas e geopolíticas profundas, enquanto a transição verde segue uma trajetória própria, porém mais gradual.
A era do xisto
A mudança mais dramática está na inversão de papéis entre carvão e gás natural. Em 1950, o carvão representava 41% da produção de energia primária dos EUA; em 2025, sua participação deverá ser de apenas 10%. No mesmo intervalo, o gás natural percorreu o caminho inverso, saltando de uma fatia de 20% para dominantes 47%. O petróleo bruto, por sua vez, manteve-se resiliente, ocupando o segundo lugar tanto em 1950 (33%) quanto em 2025 (26%), apesar de uma trajetória volátil.
O ponto de inflexão foi a consolidação das técnicas de fraturamento hidráulico (o shale drilling) a partir de 2008. A tecnologia, que destravou vastas reservas de gás e petróleo antes inacessíveis, tornou o gás natural abundante e barato, incentivando a troca nas usinas termoelétricas e na indústria. O mesmo movimento ressuscitou a produção de petróleo, que vinha em declínio por três décadas, e ajudou a transformar os EUA no maior produtor mundial, garantindo-lhe um status de exportador líquido de energia, ao lado de países como Rússia e Arábia Saudita.
Renováveis: a longa marcha
Enquanto os combustíveis fósseis disputavam a hegemonia, as fontes renováveis iniciaram sua ascensão, mas partindo de uma base muito menor. Coletivamente, fontes como solar, eólica, hidrelétrica e biocombustíveis viram sua participação na produção de energia dos EUA crescer de 3,4% em 2006 para uma projeção de 6,7% em 2025. O crescimento é notável em termos percentuais, mas seu impacto na matriz total ainda é modesto.
A energia nuclear também se consolidou como um pilar, respondendo por quase 8% da produção em 2025, uma fonte inexistente em 1950. Ainda assim, o retrato da matriz energética americana é um de continuidade transformada: os três mesmos combustíveis fósseis de 75 anos atrás ainda dominam, apenas em uma ordem diferente. A revolução do gás de xisto garantiu a supremacia fóssil por mais tempo, mesmo com a agenda de descarbonização ganhando tração política e social.
A paisagem energética dos EUA em 2025 é, portanto, um paradoxo. Ela é marcada por um boom de combustíveis fósseis viabilizado por inovação tecnológica, que corre em paralelo a uma transição para fontes limpas que, embora real, ainda está em seus capítulos iniciais. O caminho para uma economia de baixo carbono se mostra mais complexo e menos linear do que as narrativas mais otimistas sugerem.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Visual Capitalist


