A tradicional editora argentina Errepar, especializada em conteúdo para ciências econômicas e jurídicas desde 1980, lançou uma ferramenta de inteligência artificial desenhada para contadores. Batizada de Consultor IA, a plataforma funciona como um assistente treinado especificamente com a complexa e mutável normativa argentina, prometendo respostas rápidas e precisas para consultas técnicas.
O movimento, reportado pelo jornal La Nación, não é apenas mais um lançamento de produto, mas um posicionamento estratégico no nascente campo da IA para profissões reguladas. Ao contrário de ferramentas generalistas como o ChatGPT, a aposta da Errepar é em um modelo verticalizado, que funciona como um copiloto para o profissional, não como um substituto. A questão central que emerge é onde termina a ferramenta de produtividade e começa a usurpação da função profissional.
Um copiloto, não o piloto
A estratégia da Errepar é clara: mitigar o risco. A empresa utiliza sua própria equipe de especialistas para treinar e atualizar o modelo, criando um ambiente controlado que reduz a chance de respostas imprecisas ou as chamadas “alucinações” da IA. O objetivo declarado não é que a IA decida qual o regime tributário mais vantajoso para um cliente, mas que ela possa “tirar a dúvida pontual no momento exato”, liberando o contador para focar em tarefas que exigem critério e interpretação.
Essa abordagem de “copiloto” busca aumentar a eficiência sem delegar a responsabilidade profissional à tecnologia. É um modelo que visa empoderar o especialista, fornecendo-lhe acesso instantâneo a um vasto corpo de conhecimento técnico. A proposta de valor não é a automação completa, mas a aceleração do acesso ao conhecimento validado, mantendo o contador no centro da tomada de decisão.
A linha tênue da regulação
O cenário argentino oferece um contraste instrutivo. Outras startups de IA contábil, como a Lannis, enfrentaram resistência direta do Conselho Profissional de Ciências Econômicas. A entidade intimou a plataforma a cessar atividades, argumentando que ela oferecia serviços de assessoria e liquidação de impostos — atividades legalmente restritas a profissionais matriculados. O caso ilustra a tensão fundamental: a tecnologia pode executar a tarefa, mas a lei atribui a responsabilidade a uma pessoa física certificada.
O posicionamento da Errepar parece desenhado para evitar esse conflito. Ao vender a ferramenta para o contador e não como um serviço para o cliente final, ela se mantém no campo das ferramentas de produtividade. Enquanto isso, o mercado local segue aquecido com outras soluções, como a Genio Contable. A disputa não é sobre a capacidade da tecnologia, mas sobre seu enquadramento legal e o modelo de negócio.
O caso argentino é um microcosmo de um debate global que apenas começa a tomar forma em profissões como direito, medicina e contabilidade. A questão não é se a IA será adotada, mas como ela será integrada ao arcabouço regulatório e ético. A distinção entre uma ferramenta que aumenta a capacidade de um profissional e uma que tenta substituí-lo definirá a próxima fase de inovação nestes setores.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · La Nación — Tecnología





