O mercado financeiro começou a duvidar da trajetória de alta de juros do Federal Reserve, o banco central americano. Operadores reduziram drasticamente suas apostas de que a autoridade monetária elevará sua taxa básica na reunião de julho, após um relatório do governo mostrar uma inflação mais contida que o esperado no mês passado. A probabilidade de um aumento de 0,25 ponto percentual, que estava em 35%, caiu para cerca de 15%.

A mudança de humor, reportada pela agência Reuters, reflete a complexidade do cenário atual. Por um lado, o Fed mantém um discurso duro contra a inflação. Por outro, dados mais fracos sugerem que o aperto monetário já implementado pode estar surtindo efeito mais rápido que o previsto, colocando em xeque a necessidade de novas altas imediatas.

O dilema de Powell

O dado coloca o presidente do Fed, Jerome Powell, diante de um dilema. Manter o pé no acelerador do aperto monetário corre o risco de esfriar a economia além da conta; tirar o pé cedo demais pode permitir que a inflação volte a ganhar tração. O mercado, ao reduzir as apostas para julho mas ainda manter uma probabilidade elevada para setembro (agora em 70%), parece precificar não o fim do ciclo, mas uma pausa para análise.

Essa recalibragem de expectativas é o jogo padrão entre o mercado e os bancos centrais. Investidores reagem instantaneamente a cada novo dado, enquanto a autoridade monetária precisa construir uma narrativa consistente baseada em tendências, não em pontos fora da curva. A questão central é se este último dado de inflação é um evento isolado ou o início de uma nova tendência de desinflação consolidada.

Oxigênio para emergentes

Para economias como a do Brasil, a hesitação do mercado em relação ao Fed funciona como uma válvula de escape. Um aperto monetário menos agressivo nos EUA tende a fortalecer moedas de países emergentes e a aumentar o apetite por risco em ativos globais, incluindo a bolsa brasileira.

Internamente, o movimento também dá mais margem de manobra para o Banco Central do Brasil em seu próprio ciclo de política monetária. A pressão externa sobre o câmbio e a inflação diminui, ainda que marginalmente, facilitando as decisões do Copom.

A próxima reunião do Fed, que parecia ter um roteiro definido, agora ganha contornos de suspense. A certeza de uma alta de juros em julho foi substituída pela dúvida. A atenção se volta para os próximos indicadores econômicos e, principalmente, para a comunicação de Powell, que terá a difícil tarefa de guiar as expectativas sem se comprometer prematuramente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney