Numa era em que documentários sobre a natureza competem pela maior resolução de imagem, o diretor Ed Sayers propõe o caminho inverso. Seu novo filme, 'Super Nature', é uma colagem de filmagens em Super 8, o rudimentar formato analógico, capturadas por 40 cineastas em 25 países. O resultado, segundo a crítica do site britânico Little White Lies, é um deleite íntimo e granulado.
A tese aqui é que a força do filme reside justamente em suas limitações. Enquanto produções de grande orçamento usam lentes de longo alcance para criar uma distância asséptica, o Super 8 exige proximidade e paciência. Com cartuchos que duram poucos minutos, cada cena se torna um exercício de observação cuidadosa, capturando não apenas a vida selvagem, mas a própria relação do cineasta com o que está sendo filmado.
A linguagem da imperfeição
Produzido por Asif Kapadia (conhecido por 'Senna' e 'Amy'), o documentário nasce da paixão de Sayers pelo formato, que ele descreve como se "alguém tivesse pintado suas memórias". A estética granulada e o áudio levemente crepitante não são um defeito, mas uma escolha que força o espectador a uma conexão diferente. A ausência de som durante a filmagem, por exemplo, é descrita por um dos colaboradores como um "alívio", permitindo foco total na imagem.
Essa abordagem contrasta radicalmente com o padrão estabelecido por gigantes como a BBC e David Attenborough. Em vez de uma narração onisciente e uma imagem cristalina, 'Super Nature' oferece uma experiência fragmentada e pessoal. É a jornada, e não apenas o destino, que importa. A textura do filme analógico evoca uma nostalgia que a clareza digital não consegue replicar, transformando a observação da natureza em um ato quase meditativo.
Um retrato da pandemia e do planeta
Não é coincidência que o projeto tenha começado em 2020, durante os lockdowns globais. O crowdsourcing das imagens funcionou como um antídoto para o isolamento, criando uma visão coletiva do planeta em um momento de introspecção forçada. As cenas vão de renas na Noruega e dragões-marinhos na Tasmânia aos dois últimos rinocerontes-brancos-do-norte no Quênia.
O filme, no entanto, não se limita a celebrar a beleza. Ele também documenta o impacto visível da mudança climática, com imagens de geleiras recuando na Itália e incêndios florestais na França. A intimidade da câmera Super 8 torna essas perdas ainda mais palpáveis. Embora a crítica aponte comentários ocasionalmente piegas, o saldo é de um retrato coeso e comovente do nosso planeta.
'Super Nature' funciona, no fim, como um lembrete para olharmos com mais atenção para o mundo ao nosso redor e uns para os outros. É uma carta de amor tanto ao celuloide quanto à conexão humana com a natureza, provando que a imperfeição pode ser uma ferramenta narrativa poderosa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





