Um novo estudo publicado na revista Communications Earth & Environment lança um alerta contundente sobre as estratégias climáticas globais: a obsessão com o dióxido de carbono (CO2) criou um perigoso ponto cego em relação ao metano. O gás, segundo maior contribuinte para o aquecimento global, é mais de 80 vezes mais potente que o CO2 na captura de calor em um horizonte de 20 anos. Sua vida útil na atmosfera é mais curta, mas seu impacto imediato é desproporcional.

A pesquisa, detalhada em uma análise do site Carbon Brief, demonstra que mesmo os mais ambiciosos cenários de emissões líquidas zero (net-zero) para o CO2 até 2050 são insuficientes para manter o aquecimento “bem abaixo de 2°C”, como prevê o Acordo de Paris, se não forem acompanhados por cortes drásticos e específicos nas emissões de metano. A tese central é que a abordagem atual, que agrega todos os gases de efeito estufa em uma única métrica de “CO2 equivalente”, é uma simplificação que distorce a tomada de decisão e mascara a urgência.

A métrica quebrada do “CO2 equivalente”

O problema reside na forma como políticas climáticas e estratégias corporativas quantificam o impacto de diferentes gases. A métrica mais comum, o Potencial de Aquecimento Global em 100 anos (GWP100), compara o efeito de um gás ao do CO2 nesse horizonte de tempo. A fonte usa uma analogia precisa: é como perguntar “quantos espaguetes equivalem a um frango?”. A resposta depende do critério — calorias, proteína, custo. Da mesma forma, converter metano em CO2 equivalente esconde as propriedades distintas de cada gás.

Enquanto o CO2 tem um efeito cumulativo e de longa duração, persistindo na atmosfera por séculos, o metano tem um impacto agudo e de curta duração, dissipando-se em poucas décadas. Ao diluir o potente efeito de curto prazo do metano em um horizonte de 100 anos, a métrica GWP100 pode levar modelos econômicos e decisores políticos a subestimar os benefícios imediatos de cortar suas emissões. O estudo argumenta que essa conveniência contábil gera cenários que não refletem a realidade física do sistema climático, onde cortes de metano representam a alavanca mais poderosa para frear o aquecimento no curto prazo.

O custo real da inércia

Os pesquisadores propõem uma abordagem alternativa: em vez de partir de uma métrica de equivalência, os governos e empresas deveriam primeiro definir um limite máximo de aquecimento e, a partir daí, calcular os cortes de metano necessários para atingi-lo, de forma independente das metas de CO2. Os resultados dessa nova modelagem são sóbrios. Para limitar o pico de aquecimento a 1,7°C, assumindo uma meta de net-zero CO2 para 2050, as emissões de metano precisariam cair 69% em relação aos níveis de 2020.

Esse número contrasta violentamente com a trajetória atual. Sob as políticas vigentes, as emissões de metano devem, na verdade, aumentar cerca de 20% até 2050. Nesse cenário, mesmo que o mundo zere as emissões de CO2, o aquecimento superaria os 2°C. A inação no metano também corrói o chamado “orçamento de carbono” — a quantidade de CO2 que ainda podemos emitir. O estudo estima que, sem cortes agressivos de metano, o orçamento de carbono para a meta de 2°C encolhe em cerca de 30%. Para países como o Brasil, signatário do Compromisso Global do Metano e com emissões relevantes na agropecuária e no setor de energia, a dissociação dessas metas deixa de ser um debate técnico e se torna um imperativo estratégico.

A análise deixa claro que as metas de “net-zero” que não especificam um plano robusto para o metano são, na melhor das hipóteses, incompletas. O estudo oferece um novo framework para recalibrar o risco climático: o metano não é um anexo do problema do CO2, mas uma variável central e independente que definirá a velocidade do aquecimento nas próximas décadas. Para conselhos de administração e governos, a mensagem é direta: ignorar o metano é apostar contra a própria meta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Carbon Brief