A Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), ou “Organização Nacional de Voluntários”, pode ser a entidade mais influente do mundo que a maioria dos ocidentais jamais ouviu falar. Celebrando seu centenário, a organização nacionalista hindu é a espinha dorsal do Bharatiya Janata Party (BJP), o maior partido político do planeta, e a força formadora por trás de figuras como o primeiro-ministro Narendra Modi. Apesar de sua onipresença na sociedade indiana — controlando sindicatos, redes de escolas e conselhos religiosos —, a RSS permanece uma incógnita fora de suas fronteiras, frequentemente recebida com protestos e acusações de extremismo em suas raras aparições públicas no Ocidente.

Uma análise aprofundada da revista Palladium Magazine argumenta que a trajetória da RSS oferece um manual prático sobre renovação civilizacional e construção de poder. Fundada nos anos 1920, assim como o Partido Comunista Chinês (PCC) e a Irmandade Muçulmana, a RSS se distingue por seu sucesso em remodelar uma sociedade massiva de baixo para cima, com pouco apoio externo e em um ambiente descentralizado. A tese é que, para projetos ambiciosos que buscam reordenar uma civilização, o modelo da RSS — orgânico, paciente e focado na sociedade, não no Estado — é mais transferível e, talvez, mais resiliente que os de seus contemporâneos.

A arquitetura do poder paralelo

O segredo do sucesso da RSS não está na captura de instituições de elite, mas na construção de um ecossistema paralelo. A estratégia, ao longo de um século, foi ignorar a disputa pelas universidades e pela mídia legadas e, em vez disso, erguer uma infraestrutura própria de formação de quadros e influência cultural. A base de tudo são as shakhas, encontros diários que reúnem homens e jovens em dezenas de milhares de localidades para uma mistura de exercícios físicos, canções patrióticas e formação ideológica. Essa rotina cultiva disciplina, laços fraternais e um senso de propósito nacionalista.

Este sistema funciona como um vasto funil de identificação e desenvolvimento de talentos, especialmente em cidades pequenas e zonas rurais, longe dos circuitos tradicionais da elite anglófona indiana. Indivíduos promissores são identificados e promovidos dentro da rede. O próprio Modi, filho de um vendedor de chá de uma pequena cidade, é o produto mais notável dessa meritocracia paralela. Os quadros mais dedicados, os pracharaks, fazem votos de austeridade, renunciando a casamento e riqueza para servir à organização. Eles são a cola que une a vasta rede de organizações afiliadas, conhecida como Sangh Parivar, garantindo coesão ideológica e lealdade à missão maior.

O modelo e suas tensões

A força da RSS reside também em sua flexibilidade doutrinária. Diferente de movimentos de vanguarda do século XX, a organização não exige adesão a uma ideologia rígida. Há um sentimento de orgulho civilizacional hindu e uma visão conservadora, mas não há um programa econômico fixo ou uma teoria de Estado canônica. Essa frouxidão permite que a Sangh Parivar abrigue uma enorme diversidade de projetos e até mesmo dissidências internas — o braço sindicalista frequentemente se opõe às políticas de liberalização econômica do BJP, por exemplo. A RSS atua como uma plataforma que permite a coexistência de tensões, arbitrando disputas lentamente e buscando consenso ao longo de décadas.

Contudo, este modelo não existe sem profundas controvérsias. A principal limitação do projeto da RSS é sua dificuldade em integrar as massivas minorias muçulmana e cristã da Índia, que compõem quase um quinto da população. Críticos acusam o movimento de relegá-los a uma cidadania de segunda classe, apontando para a violência sectária em áreas de forte influência nacionalista. A organização também nunca se livrou da mancha de sua associação com o assassino de Mahatma Gandhi, um ex-membro que, apesar de ter deixado o grupo, compartilhava de sua ideologia. A ascensão do BJP ao poder também alterou o centro de gravidade do movimento, forçando uma renegociação constante de poder entre a criatura política e sua criadora social.

Apesar das controvérsias, a influência da RSS na Índia é inegável e crescente. O movimento conseguiu deslocar o centro cultural do país a ponto de até mesmo partidos de oposição adotarem uma retórica “soft Hindutva” para competir por votos. O que a organização construiu é um exemplo funcional de como uma tradição pode navegar a turbulência da modernidade, não sendo varrida por ela, mas canalizando-a. Para o restante do mundo, onde a desorientação social e a desconfiança nas elites são crescentes, o manual da RSS — focado em construir, não em capturar; em desenvolver talentos, não apenas em selecioná-los; e em oferecer propósito e pertencimento — é uma lição poderosa sobre como o poder será disputado no século XXI.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Palladium Magazine