Em um mercado de trabalho cada vez mais permeado pela inteligência artificial, a ansiedade sobre o tema é palpável. A novidade é que o receio de perguntar sobre as políticas de IA de um potencial empregador pode estar fora de lugar. Pelo contrário: a indagação está se tornando uma ferramenta estratégica para o candidato.

Essa é a visão de Meredith Hawkins, a Chief People Officer da GoTo, empresa de software para comunicação e TI remoto. Em um ensaio para o Business Insider, ela argumenta que fazer perguntas ponderadas sobre IA em uma entrevista de emprego não sinaliza resistência, mas sim preparo, curiosidade e pensamento estratégico. A questão deixou de ser um risco para se tornar um filtro de maturidade — tanto para quem pergunta quanto para quem responde.

Do medo à estratégia

A hesitação dos profissionais tem fundamento. Uma pesquisa da própria GoTo com 2.500 empresas apontou que 83% dos trabalhadores temem ser responsabilizados por erros cometidos por ferramentas de IA, ou mesmo demitidos por causa deles. Existe uma tensão clara entre a pressão pela adoção da tecnologia e a falta de uma rede de segurança corporativa.

É nesse vácuo que a abordagem de Hawkins ganha força. A recomendação é iniciar a conversa com curiosidade, perguntando sobre o uso geral da tecnologia na empresa, para depois aprofundar em regras, uso aceitável e proteção de dados. A pergunta bem formulada transforma o candidato de um mero receptor de informações em um avaliador da cultura e da organização da companhia.

Um termômetro de cultura

A resposta — ou a falta dela — sobre as diretrizes de IA funciona como um teste de Rorschach para a maturidade da empresa. Segundo Hawkins, ter políticas claras sobre o tema é um indicador de uma área de Recursos Humanos estruturada, no mesmo patamar de importância de treinamentos de compliance ou práticas de inclusão.

O cenário, contudo, é desigual. A pesquisa da GoTo mostra que 53% das grandes corporações possuem políticas de IA, contra apenas 24% das pequenas empresas. Para um profissional, saber onde a companhia se posiciona nesse espectro pode ser decisivo, especialmente quando o trabalho envolve o uso de ferramentas cujo potencial para erros ainda é uma fronteira em exploração.

A transparência, portanto, torna-se uma via de mão dupla desde o primeiro contato. Ao colocar a IA na pauta da entrevista, candidato e empresa começam a construir as bases de confiança necessárias para navegar em um ambiente de trabalho onde os erros e acertos serão, cada vez mais, compartilhados com algoritmos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider