A cidade de Ávila, patrimônio mundial na Espanha, decidiu usar um dos comportamentos mais universais do turista contemporâneo — a busca pela foto perfeita — como um vetor de engajamento. Com um investimento modesto de cerca de €18 mil, a prefeitura instalou seis totens em pontos emblemáticos, convidando visitantes a tirar uma foto, escanear um QR Code e, a partir daí, mergulhar em um portal com informações sobre o local.

O movimento, noticiado pela Forbes España, é uma aula de simplicidade estratégica. Em vez de desenvolver um aplicativo pesado e de baixa adesão, Ávila aposta em tecnologias abertas e onipresentes: a câmera do celular, o QR Code e o navegador web. A iniciativa não tenta competir com a grandiosidade de suas muralhas medievais, mas adiciona uma camada digital sutil que enriquece a visita, ao mesmo tempo que gera mídia orgânica para a cidade no Instagram.

O 'phygital' como política pública

A estratégia de Ávila é um exemplo pragmático do conceito “phygital” — a integração entre os mundos físico e digital. O totem funciona como uma âncora física, um chamado à ação que direciona o fluxo de visitantes para uma experiência digital curada. É uma forma de guiar a narrativa sobre a cidade, oferecendo conteúdo oficial em três idiomas (espanhol, inglês e francês) em um ambiente onde, de outra forma, o turista dependeria de buscas genéricas na internet.

Mais importante, a iniciativa faz parte de um plano de sustentabilidade turística muito maior, de €2,7 milhões, financiado com recursos do fundo europeu NextGeneration. Enquanto a rota fotográfica é a isca digital, o investimento substancial está na “transição verde”, na eficiência energética e na requalificação de espaços naturais, como as margens dos rios locais. O digital, aqui, não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para valorizar e comunicar as melhorias no mundo real.

Lições para destinos históricos

A abordagem de Ávila serve de reflexão para cidades históricas no Brasil e no mundo, que frequentemente enfrentam o dilema de como inovar sem descaracterizar seu patrimônio. A solução espanhola mostra que a transformação digital no turismo não exige, necessariamente, realidade aumentada ou projetos de altíssima complexidade. Ela pode começar com intervenções de baixo custo e alta alavancagem, que resolvem um problema real do visitante e geram dados valiosos para a gestão do destino.

O projeto transforma o turista de mero espectador a um participante ativo na promoção da cidade. Cada foto postada com a hashtag oficial amplia o alcance de Ávila de forma autêntica. O desafio, agora, será medir o real impacto dessa camada digital: ela está apenas otimizando o fluxo de selfies ou consegue, de fato, aprofundar a conexão do visitante com a história e a cultura local, incentivando-o a explorar para além dos pontos óbvios?

O sucesso da iniciativa não estará apenas nos likes, mas na capacidade de usar a tecnologia como uma ponte para uma apreciação mais rica do patrimônio. O QR Code é apenas a porta de entrada; o verdadeiro valor está no que o visitante descobre ao atravessá-la.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España