Em uma temporada de resultados marcada pela euforia com inteligência artificial, a Dell Technologies entregou o que talvez tenha sido a maior surpresa. A companhia, muitas vezes vista como um nome tradicional da era do PC, reportou um crescimento de 58% na receita e esmagou as expectativas de lucro. O motor por trás dos números: uma carteira de pedidos de US$ 60,9 bilhões para servidores de IA em um único trimestre e um backlog total que se aproxima de US$ 100 bilhões.

Para o mercado, que por anos subestimou a Dell como uma mera montadora de hardware, os números foram um choque. Para a companhia, foi a validação de uma tese silenciosa e contrária à maré: a de que o futuro da IA não será construído apenas na nuvem pública dos "hyperscalers" como Amazon, Microsoft e Google. Segundo uma análise da Fortune, o que estamos vendo é o despertar de um gigante adormecido, posicionado para capitalizar sobre uma onda que poucos viram chegar: o boom da IA "on-premise", ou seja, dentro da infraestrutura própria das empresas.

A tese do 'on-premise'

O termo "on-premise" descreve uma arquitetura que parece ir na contramão da última década: em vez de alugar poder computacional na nuvem, as empresas estão optando por comprar, controlar e operar seus próprios servidores de IA. A lógica é simples e poderosa: faz mais sentido levar a IA até os dados, e não o contrário. Isso se dá por três motivos principais. Primeiro, segurança e sensibilidade. Os dados mais críticos de uma companhia — propriedade intelectual, contratos, dados de clientes e pacientes — já residem em servidores privados. Movê-los para a nuvem é um risco e um custo.

O segundo fator é o controle. Bancos, hospitais, empresas de defesa e governos têm restrições regulatórias e de segurança que tornam desaconselhável ou mesmo proibitivo que seus dados mais sensíveis saiam de seus domínios. Como disse Michael Dell, o risco é "perder o controle de seus dados, seu custo, sua segurança". Por fim, há a matemática financeira. Alugar servidores para treinar um modelo de IA pode fazer sentido, mas rodar aplicações de IA 24/7 em regime de aluguel se torna proibitivo no longo prazo. A propriedade otimiza os custos de inferência, que é a operação contínua dos modelos. A leitura é que, enquanto a nuvem domina o treinamento, o "on-premise" está emergindo como o campo de batalha para a execução.

A estratégia da sobrevivência

A aposta da Dell não é recente. Ela remonta à aquisição da EMC por US$ 67 bilhões em 2016, a maior compra de uma empresa de tecnologia da história. Na época, a jogada foi vista como uma aposta ousada de que as empresas continuariam a querer ser donas de sua infraestrutura. Hoje, a decisão parece profética. Enquanto competidores históricos como Sun Microsystems, Compaq e Data General foram engolidos por mudanças de mercado que não anteciparam, a Dell construiu um portfólio integrado de servidores, armazenamento, redes e PCs. Esse modelo lhe deu escala e poder de barganha para obter componentes essenciais, como chips de memória, em um ano de escassez sem precedentes.

Essa visão de longo prazo só foi possível devido à estrutura de governança da companhia. As ações de classe dupla dão a Michael Dell controle substantivo sobre o negócio, permitindo-lhe tomar decisões estratégicas sem a pressão trimestral de Wall Street. Foi essa estrutura que lhe permitiu fechar o capital da empresa em 2013, superando a oposição do investidor ativista Carl Icahn, que queria fatiar a companhia. A Dell não apenas sobreviveu aos seus rivais; em muitos casos, ela acabou por adquiri-los, provando que uma estratégia generalista e integrada pode ser mais resiliente do que a especialização em um mundo de mudanças tecnológicas constantes.

O mercado frequentemente opera com narrativas simplificadas, como a oposição entre a "nuvem" e o "legado". O caso da Dell demonstra que a realidade é mais híbrida e complexa. O boom da IA generativa não é apenas uma revolução de software; é, fundamentalmente, uma demanda massiva por hardware. E a Dell, que muitos consideravam uma relíquia, se posiciona agora como uma das principais fornecedoras de "pás e picaretas" para essa nova corrida do ouro. A questão que fica é quais outras teses, aparentemente óbvias, o mercado pode estar ignorando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune