Equipes criativas enfrentam um gargalo operacional crescente: o tempo gasto na busca por ativos digitais. Segundo Shane Hegde, CEO da startup Air, profissionais do setor dedicam cerca de 20% do dia útil procurando arquivos antigos, imagens de campanhas passadas ou filmagens esquecidas em pastas desorganizadas. Hegde denomina esse fenômeno como "dívida de busca", uma ineficiência que se tornou insustentável com a multiplicação dos canais de marketing e a aceleração da produção visual impulsionada pela IA.

Para solucionar o impasse, a Air, sediada em Nova York, posiciona-se como o "sistema de registro" para dados visuais, uma categoria que, segundo o executivo, ainda carecia de uma solução dedicada. Enquanto departamentos de vendas contam com o Salesforce e engenheiros utilizam o GitHub, o trabalho criativo permaneceu historicamente fragmentado entre serviços de armazenamento em nuvem genéricos e discos rígidos físicos, perpetuando o risco de perda de dados e a ineficiência operacional.

A falha dos serviços de armazenamento genéricos

A tese central da Air é que plataformas como Google Drive, Dropbox ou SharePoint não foram desenhadas para as nuances da gestão de ativos visuais. Embora sejam ferramentas duráveis e flexíveis para documentos, elas tratam um vídeo de alta resolução ou uma imagem de campanha da mesma forma que uma planilha de texto. Essa abordagem ignora necessidades específicas, como a transcodificação automática de formatos, a marcação de metadados, o gerenciamento de direitos autorais e a necessidade de pré-visualização em diferentes dispositivos.

Hegde utiliza a analogia de que, assim como o Salesforce otimizou o processo de vendas após décadas de especialização, a Air busca estruturar o ciclo de vida do conteúdo. A empresa gerencia atualmente mais de 10 petabytes de dados, atendendo desde pequenas agências até grandes corporações globais, provando que o desafio de organizar o caos visual é uma dor universal que atravessa diferentes indústrias e escalas de operação.

A estratégia de neutralidade no ecossistema

Em um cenário onde criativos alternam entre dezenas de ferramentas — como Adobe, Canva, Figma e CapCut — a Air aposta em uma estratégia de integração. Hegde define a plataforma como uma "Suíça" no ecossistema de tecnologia, mantendo uma posição neutra e conectiva. A ideia é que, independentemente da ferramenta utilizada para a criação ou do destino final do conteúdo, a Air funcione como a fonte única da verdade, permitindo que as equipes colaborem sem o atrito de alternar entre múltiplos repositórios.

Essa abordagem de "integração em primeiro lugar" visa resolver a fragmentação que ocorre no momento da distribuição de conteúdo para redes sociais, plataformas de anúncios e sistemas de gerenciamento de conteúdo (CMS). Ao centralizar o histórico e a memória visual da empresa, a plataforma permite que ativos antigos sejam rapidamente localizados e reaproveitados, transformando arquivos mortos em insumos produtivos para novas campanhas.

Implicações para a produtividade criativa

A transição para um sistema de registro especializado impacta diretamente a governança dos ativos dentro das empresas. Para reguladores e gestores de TI, a centralização oferece maior controle sobre direitos de imagem e conformidade. Para as equipes de marketing, o benefício é a agilidade: a capacidade de realizar consultas complexas em segundos, recuperando momentos específicos de produções realizadas há décadas, como exemplificado pelo uso da plataforma em grandes campanhas de entretenimento.

No Brasil, onde agências e departamentos de marketing buscam otimizar custos operacionais em um mercado cada vez mais digital, a adoção de sistemas especializados reflete uma maturidade crescente na gestão de dados. A tensão entre a criatividade humana e a eficiência técnica parece ser o próximo campo de batalha, onde a tecnologia não substitui o talento, mas garante que o esforço criativo não se perca em uma estrutura de armazenamento obsoleta.

O futuro da gestão de ativos visuais

Permanece em aberto a questão de como a inteligência artificial generativa alterará o volume e a natureza desses ativos. Se a produção de variantes visuais se tornar exponencial, a capacidade de indexar e organizar o conteúdo de forma inteligente será o diferencial entre o caos e a escala. O mercado observará se a Air conseguirá manter sua posição de neutralidade à medida que grandes players de software tentam dominar o fluxo de trabalho ponta a ponta.

A evolução da "dívida de busca" dependerá de quão rápido as organizações conseguirão migrar de um modelo de armazenamento passivo para um modelo de memória ativa. A tecnologia de gestão de ativos visuais está deixando de ser um luxo operacional para se tornar uma infraestrutura crítica de negócios. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company