Eli Scheinman, uma figura central na intersecção entre arte e tecnologia, ofereceu um diagnóstico contundente do cenário atual. Em entrevista ao Hypebeast, o curador inaugural da ZERO 10, plataforma da Art Basel dedicada à era digital, descreveu o momento como uma espécie de cerco: “Bárbaros no portão”.

A metáfora encapsula a visão de Scheinman sobre uma indústria em conflito. De um lado, uma vanguarda de artistas que exploram novas fronteiras, especialmente na colaboração entre humanos e máquinas. Do outro, um establishment que, em sua visão, permanece preso a “dogmas entrincheirados” e formatos de apresentação digital obsoletos, como catálogos em PDF.

A Máquina como Pincel

O entusiasmo de Scheinman está direcionado a artistas que desafiam as convenções. Ele aponta a retrospectiva de Beeple, “Infinite Loop”, como um dos momentos mais importantes do ano, descrevendo o artista — muitas vezes associado apenas ao boom dos NFTs — como “um dos mais incisivos e importantes artistas contemporâneos”. A chave, para o curador, está nas esculturas cinéticas de Beeple, que transcendem o puramente digital.

Outro destaque é “Recursions”, da artista Sougwen Chung, apresentado na Art Basel de Hong Kong. A obra consiste em performances onde Chung pinta em colaboração com braços robóticos, explorando as “tensões críticas na colaboração humano-máquina”. Para Scheinman, esses trabalhos não são meros experimentos tecnológicos; são investigações poéticas e profundas sobre a natureza da criatividade em um mundo onde a autoria é cada vez mais compartilhada com algoritmos e máquinas.

Catálogos em PDF e a Inércia do Establishment

Se a vanguarda empolga, a estrutura que a sustenta frustra. Scheinman atribui uma nota “B” ao mundo da arte, um reconhecimento de que há “pequenas aberturas para cenas emergentes e novas ideias”, mas que a criatividade ainda é estrangulada por uma mentalidade conservadora. A crítica mais palpável é direcionada às galerias e suas apresentações online “cansadas e previsíveis”.

O pedido para o fim dos catálogos em PDF é mais do que um detalhe técnico; é um sintoma da falta de imaginação para explorar o ambiente digital em seus próprios termos. Scheinman clama por mais “colisões e justaposições inesperadas”, citando a plataforma de leilões Fair Warning, de Loïc Gouzer, como um exemplo positivo. A leitura aqui é que a revolução digital na arte não pode ser apenas sobre o que é criado, mas fundamentalmente sobre como a arte é exibida, contextualizada e comercializada.

A imagem dos “bárbaros no portão” sugere um confronto inevitável. Não se trata de uma ameaça de destruição, mas de uma força de renovação que pressiona as muralhas de um sistema que reluta em se adaptar. A questão que paira, segundo a análise de Scheinman, não é se as estruturas vão mudar, mas o que restará delas quando a poeira assentar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast