A economia argentina atravessa um momento de inflexão marcado por conquistas expressivas em indicadores que, até pouco tempo atrás, eram fontes de instabilidade crônica. Segundo relatório recente do Bank of America, o país conseguiu alinhar dois dos três pilares necessários para a estabilização completa: o controle da inflação e o equilíbrio das contas externas. O diagnóstico do banco sugere que a política de aperto fiscal implementada pelo governo de Javier Milei, combinada com um desempenho robusto das exportações, criou as condições para o que os analistas classificam como um possível ciclo virtuoso para o crédito e a continuidade das reformas estruturais.

A tese central do BofA é que, embora o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ainda seja a peça faltante para completar o alinhamento total dos "planetas" econômicos, a base para essa recuperação está sendo consolidada. Com a inflação mensal atingindo 2,1% em maio e uma projeção de 32% para o fechamento do ano, a trajetória de desinflação ganha credibilidade. Paralelamente, o superávit nas contas correntes e o fortalecimento das reservas internacionais — que superaram as metas estabelecidas para o período — oferecem um colchão de liquidez necessário para sustentar a estabilidade cambial em um cenário de abertura econômica.

A estratégia de ajuste e a desregulamentação

O sucesso inicial do ajuste fiscal argentino, que reverteu um déficit primário de 2,7% do PIB em 2023 para um superávit nominal sustentado desde 2024, não pode ser atribuído exclusivamente aos cortes de despesas. A dinâmica foi impulsionada por um choque inflacionário inicial, fruto da desvalorização cambial e da liberação de preços, que corroeu o valor real dos gastos públicos e facilitou o equilíbrio das contas. Esse fenômeno, embora doloroso no curto prazo, serviu como um catalisador para a reestruturação das finanças estatais.

Além do ajuste contábil, a administração Milei tem avançado em uma agenda de desregulamentação profunda. A revogação de leis que permitiam intervenções estatais arbitrárias, como a antiga Ley de Abastecimiento, e a eliminação de barreiras ao comércio exterior refletem uma mudança de paradigma. A reforma trabalhista, focada na flexibilização de jornadas e períodos de férias, busca reduzir o custo de conformidade para o setor privado, criando um ambiente mais propício ao investimento estrangeiro direto.

Mecanismos de exportação e reservas

O salto nas exportações, com crescimento de 21,5% nos primeiros quatro meses do ano, é o motor que sustenta a melhora externa. O setor de energia, em particular, tem se destacado, com uma contribuição positiva de US$ 9 bilhões no saldo comercial acumulado nos últimos doze meses. Esse fluxo de divisas, somado ao aumento do volume e do valor das commodities agrícolas e minerais, permitiu que o Banco Central da Argentina fortalecesse sua posição de reservas líquidas, saindo de um patamar negativo para um saldo positivo de US$ 8 bilhões.

A melhora na percepção de risco, refletida na elevação do rating soberano pelas agências S&P e Fitch, atua como um mecanismo de retroalimentação. Ao ampliar o acesso ao mercado de dívida internacional, o país reduz a pressão sobre o financiamento doméstico, permitindo que o capital privado assuma o protagonismo na retomada da atividade. Esse ciclo, se mantido, tende a ancorar as expectativas de longo prazo, tornando a estabilização menos dependente de medidas de choque e mais alinhada a fundamentos de mercado.

Implicações para o ecossistema regional

A recuperação argentina traz implicações diretas para o Cone Sul e para o mercado de capitais latino-americano. Para os investidores, a normalização da economia argentina representa a reabertura de um mercado historicamente resiliente, mas volátil, que agora oferece prêmios de risco mais atrativos sob uma ótica de reformas permanentes. Reguladores e parceiros comerciais observam com atenção a eliminação de tarifas sobre bens de capital, que pode reconfigurar as cadeias de suprimentos regionais e intensificar a competição em setores industriais.

Para o Brasil, o cenário exige uma recalibração da leitura sobre o vizinho. Enquanto o Brasil enfrenta desafios para equilibrar seu rombo nominal, a Argentina demonstra que mudanças drásticas na condução macroeconômica podem gerar resultados rápidos em termos de solvência. A tensão, contudo, permanece sobre a sustentabilidade social dessas reformas, dado que o ajuste impacta diretamente o poder de compra da população e a atividade econômica real, cujos reflexos políticos ainda são uma variável de incerteza.

O desafio da sustentabilidade do crescimento

A grande incógnita para os próximos trimestres reside na capacidade do governo em manter o ritmo de reformas sem erodir o suporte político necessário. A transição de um modelo baseado em arrocho para um baseado em crescimento real do PIB exige que o consumo das famílias e o investimento privado respondam de forma coordenada à queda da inflação e à desregulamentação.

O que se observa é um país em busca de normalidade, onde o foco agora se desloca da sobrevivência fiscal para a produtividade. O comportamento do PIB nos próximos meses será o termômetro definitivo para saber se o ciclo virtuoso apontado pelo BofA será duradouro ou se a economia argentina encontrará novos gargalos estruturais no caminho.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech