O principal risco para a economia brasileira não está em Brasília, mas nas capitais financeiras do mundo. O cenário macroeconômico externo, com juros elevados nas principais economias, funciona como um estopim que pode agravar a já preocupante trajetória da dívida pública do país. A avaliação é de Gustavo Rostelato, economista da Armor Capital, feita durante a Expert XP 2026.

Para o economista, os desafios fiscais domésticos se tornam mais agudos quando confrontados com o aperto monetário nos Estados Unidos, Europa e Japão. A leitura é que a vulnerabilidade das contas públicas brasileiras cria um terreno fértil para uma crise, e o gatilho pode ser disparado por fatores exógenos. “É sempre um gatilho que explode uma bomba maior”, afirmou Rostelato em entrevista ao InfoMoney.

A assimetria das políticas

O cerne do problema, segundo a análise, reside em um descompasso de tempo e efeito entre as políticas fiscal e monetária. Enquanto os impulsos fiscais do governo, como o aumento de gastos, impactam a atividade econômica em um ou dois meses, o efeito contracionista da política monetária do Banco Central demora cerca de um ano para atingir sua potência máxima.

Essa dinâmica cria uma colisão iminente. Nos próximos meses, o aperto monetário atingirá seu pico de eficácia exatamente quando a necessidade de um ajuste fiscal se tornar mais premente para conter o impulso dos gastos. A combinação dessas duas forças, uma freando e outra acelerando, pode resultar em uma desaceleração abrupta da economia.

O ajuste inevitável (e impopular)

O mercado já percebeu que o atual arcabouço fiscal se provou “flexível demais”, nas palavras de Rostelato. A consequência é que, independentemente do resultado eleitoral, o próximo governo será obrigado a promover ajustes para conter a dívida. O cenário base da Armor Capital é a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas a necessidade da reforma é vista como um imperativo técnico, não político.

As soluções, no entanto, são impopulares. As alternativas para frear os gastos e aumentar a arrecadação passam por temas sensíveis como a desvinculação de salários, a revisão de incentivos fiscais e até a tributação de títulos hoje isentos, como LCI e LCA. Em ano eleitoral, a chance de avanço é nula. “Esse ano, esquece, a gente vai começar a discutir isso no ano que vem”, pontuou o economista.

Diante da volatilidade, a própria Armor Capital reflete a cautela do mercado, evitando grandes teses de longo prazo e focando em posições táticas mais curtas. A estratégia é buscar retornos diários próximos ao CDI em vez de apostar em um cenário macroeconômico que permanece instável e com riscos elevados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney