O mercado de carne bovina no Brasil deve experimentar uma valorização de cerca de 10% nos preços do boi até 2027, impulsionado pela fase de retenção de animais e um recuo de aproximadamente 10% nos abates no terceiro trimestre de 2026, segundo análise do Bank of America (BofA). Paralelamente, o pior momento das margens do setor nos Estados Unidos parece ter ficado para trás, com expectativas de melhora gradual nos próximos trimestres. Essa avaliação, compilada em um relatório das analistas Isabella Simonato e Julia Zaniolo, baseia-se em conversas com representantes de JBS, MBRF e Minerva Foods durante uma viagem de investidores.
Perspectivas distintas para Brasil e EUA
No Brasil, a oferta mais restrita de animais sustenta os preços da carne bovina, que permanecem firmes nos mercados de exportação. Contudo, a definição das cotas chinesas para 2027 e as novas regras de acesso aos Estados Unidos adicionam camadas de incerteza para os frigoríficos. A China, em particular, representa um desafio logístico: um sistema de cotas por ordem de chegada pode esgotar o volume disponível em apenas quatro meses, levando o setor a defender uma distribuição escalonada baseada na participação de mercado.
Minerva e o desafio dos estoques nos EUA
A Minerva Foods enfrenta um obstáculo de curto prazo relacionado à formação de estoques nos Estados Unidos. Com os fluxos comerciais para o país ainda lentos devido à implementação de novas regras de importação, a empresa tem acumulado produtos que ainda precisam ser vendidos. Esse movimento deve pressionar o capital de giro no terceiro trimestre de 2026, embora o BofA espere uma melhora significativa no quarto trimestre. A disciplina de capital tornou-se uma prioridade, com a Minerva reduzindo a distribuição de lucros e mantendo uma reserva de caixa robusta para atingir seu objetivo de alavancagem.
Recuperação de margens e foco em desalavancagem
Para JBS e MBRF, a perspectiva é de uma recuperação mais sólida nas margens americanas. Fatores como a retomada das importações de gado mexicano, o aumento do peso das carcaças e o fechamento de plantas têm elevado a utilização da capacidade instalada do setor para mais de 80%. A demanda nos EUA, apesar de preços de atacado estáveis a ligeiramente menores, mantém-se resiliente. Ambas as empresas priorizam a desalavancagem, com a JBS focada em trazer a relação dívida líquida/Ebitda para até 3 vezes em 2027, enquanto a MBRF corta investimentos e refinancia dívidas de curto prazo. A rentabilidade da operação americana de carne bovina da JBS deve voltar a se aproximar do ponto de equilíbrio em 2027.
Disciplina de capital e prioridades futuras
Em um cenário de crédito mais restritivo, a redução de investimentos em expansão e a priorização da desalavancagem são temas centrais para as empresas do setor. A Minerva busca reduzir sua alavancagem para uma faixa de 1,7 a 1,8 vez até o primeiro semestre de 2028. A JBS, por sua vez, tem cerca de US$ 1 bilhão em dividendos vinculados ao objetivo de manter a alavancagem sob controle. A MBRF, além de cortar investimentos, explora o retorno ao mercado internacional de títulos de dívida e a oferta pública inicial de ações da Sadia Halal como parte de sua estratégia de gestão financeira.
A análise do BofA sugere um horizonte de recuperação para o setor de carne bovina, com nuances importantes entre os mercados brasileiro e americano e focos estratégicos distintos para as principais empresas. A execução dessas estratégias, especialmente no que tange à gestão de capital e à navegação em mercados regulados, será crucial para o desempenho futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





