A Constituição de 1988, marco de uma nova era democrática no Brasil, foi promulgada quando o autor tinha 12 anos. Crescer junto a essa nova etapa significou presenciar a retomada das eleições diretas, o combate à hiperinflação com a implantação do Plano Real e a consolidação de instituições que, por muitos anos, alimentaram a esperança de um avanço contínuo, apesar dos desafios inerentes a um país de dimensões continentais.

Quase quatro décadas depois, um olhar retrospectivo revela um cenário que inspira mais desânimo do que otimismo, e uma projeção para o futuro marcada por incertezas. A começar pelo Estado do Rio de Janeiro, onde cinco ex-governadores foram presos em algum momento desde 1988. A diversidade de situações jurídicas não diminui o impacto histórico desse fato. Ampliando a perspectiva para o cenário nacional, a lista de presidentes que exerceram o cargo desde a redemocratização é acompanhada por um número expressivo de processos e, em alguns casos, prisões. A renúncia de Collor e o impeachment de Dilma Rousseff adicionam camadas de complexidade a esse panorama.

A promessa de instituições em funcionamento

Por um período considerável, a interpretação desses episódios era ambivalente. Por um lado, confirmavam a ocorrência de irregularidades por parte de políticos e figuras poderosas. Por outro, e talvez mais importante, demonstravam o funcionamento das instituições democráticas. A capacidade de investigar presidentes, prender governadores, responsabilizar empresários e até mesmo destituir autoridades de seus cargos parecia indicar que o poder, finalmente, começava a encontrar seus limites. Essa, em si, já era uma conquista significativa para a consolidação da democracia brasileira, sinalizando um contrapeso efetivo contra possíveis abusos do Executivo.

O Judiciário sob escrutínio

Contudo, a discussão pública e política no Brasil tem se voltado, cada vez mais, para o próprio Judiciário, com destaque para o Supremo Tribunal Federal (STF) e, mais recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A questão que emerge, e que causa profunda inquietação, é o que acontece quando a confiança na própria instância julgadora começa a se deteriorar. Um episódio recente, poucas horas antes do último debate presidencial antes do primeiro turno, exemplificou essa tensão: decisões do TSE e do STF alteraram regras previamente estabelecidas para o debate, levando ao seu cancelamento pela TV Globo sob a alegação de insegurança jurídica. Independentemente da concordância com os méritos jurídicos das decisões, a alteração de regras do jogo eleitoral em momentos tão cruciais levanta sérias dúvidas sobre a estabilidade e a previsibilidade do processo democrático.

Reflexões sobre caráter e valores

A preocupação transcende a esfera institucional e atinge o cotidiano. A sensação é de uma perda de referências básicas como respeito, ética, responsabilidade, educação e coerência. O certo e o errado parecem ter se tornado dependentes da conveniência ou da afiliação ideológica, relativizando a aplicação da lei e a indignação moral. Uma sociedade que opera sob tais premissas tem dificuldade em edificar instituições sólidas e confiáveis. A figura de Fernando Henrique Cardoso é evocada não apenas por suas realizações intelectuais, mas também por sua civilidade e respeito às instituições, um exemplo de como a democracia madura necessita mais de instituições robustas do que de heróis.

O futuro em construção

A pergunta que se impõe, mais do que "Que país é este?", é "Que país estamos construindo?". Em um cenário de polarização intensa, onde cada grupo parece habitar sua própria realidade de fatos e narrativas, a transmissão de valores para as próximas gerações torna-se um desafio monumental. A esperança reside não em salvadores da pátria, mas em uma nova geração que seja mais exigente consigo mesma e com todos os setores da sociedade: políticos, Judiciário, empresas e imprensa. A defesa de princípios, mesmo quando desfavoráveis, e a compreensão de que instituições fortes acolhem questionamentos e se submetem a controle são fundamentais. O desafio final é ensinar que caráter, ética e a aplicação da lei não podem ser circunstanciais ou ideológicos, mas sim pilares inegociáveis para a construção de um futuro mais promissor.

Com reportagem de Brazil Valley

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