A China consolidou sua posição como o principal fornecedor da Espanha em agosto, marcando o terceiro mês consecutivo em que Pequim supera a Alemanha nesse quesito. Essa mudança, que vinha sendo antecipada por análises de mercado, sinaliza uma transformação estrutural nas relações comerciais espanholas, rompendo com décadas de domínio alemão. Os dados mais recentes do Ministério da Economia espanhol revelam que, entre janeiro e agosto, as importações da China totalizaram 35,88 bilhões de euros, um aumento de 11,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em contraste, a Alemanha registrou 33,69 bilhões de euros, com um crescimento mais modesto de 2,5%. A diferença acumulada já ultrapassa os 2,1 bilhões de euros.

Ascensão chinesa e o desequilíbrio comercial

O avanço chinês não se restringe a um período isolado. Em agosto, as importações da China cresceram impressionantes 18,9%, alcançando 4,43 bilhões de euros, enquanto as compras da Alemanha foram de 3,27 bilhões. Essa dinâmica expõe um desequilíbrio comercial significativo. As exportações espanholas para a China, embora tenham registrado um pico de 41,5% em agosto (atingindo 680 milhões de euros), apresentaram um crescimento modesto de apenas 0,7% no acumulado do ano, somando 5,38 bilhões de euros. O resultado é um déficit comercial bilateral com a China de 30,5 bilhões de euros, 13% maior que no ano anterior. Com a Alemanha, o saldo negativo é de 6,57 bilhões de euros, com redução de 5,6%.

Implicações para setores estratégicos e dependência externa

A crescente dependência espanhola da China vai além de produtos manufaturados de baixo custo. Pequim domina setores cruciais para a transição energética e a modernização industrial, como baterias, painéis solares e veículos elétricos, além de ter forte presença em equipamentos elétricos, telecomunicações e maquinaria industrial. Esse cenário levanta preocupações sobre a vulnerabilidade da economia espanhola a flutuações em cadeias de suprimentos externas em áreas consideradas essenciais para a competitividade futura. O déficit comercial total da Espanha, que atingiu 45,82 bilhões de euros entre janeiro e agosto — um aumento de 30% e o maior para o período desde 2022 —, é explicado em grande parte pela relação com a China, que responde por 66,5% desse déficit.

O contraste com a União Europeia e o desafio de reequilíbrio

A evolução do comércio espanhol com a China contrasta com a postura mais cautelosa da União Europeia. Bruxelas tem expressado preocupação com o desequilíbrio comercial com Pequim, que gerou um déficit de mais de 1 bilhão de euros diários para o bloco em 2025. A Comissão Europeia já sinalizou a intenção de estudar novas restrições a importações chinesas. Apesar disso, o governo espanhol tem buscado estreitar laços com a China, com o presidente Pedro Sánchez realizando múltiplas viagens ao país asiático. Contudo, os dados atuais indicam que o acesso ao mercado chinês ainda não se traduziu em um aumento substancial das vendas espanholas, reforçando o desafio de diversificar fornecedores e, simultaneamente, equilibrar a balança comercial com um dos maiores mercados globais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España